23 de fev. de 2019

Acessibilidade atitudinal


         
            O éden da inclusão ascende na intenção expansiva, germina através dos sonhos, nas ações de todos os militantes, divulgadores da causa. Mais ou menos, em que consistiria isso? Como configurar com a realidade terrestre um plano de integração possível, mais rápido e adequado para as nossas demandas?
Este caldeirão opaco, vazio pela falta de uma política pública nacional consistente, poderia dar um caldo bem melhor. Não salgar tanto pela omissão, nem apimentar o cotidiano com promessas. Apenas pelo acréscimo de um certo tempero, teríamos o ganho essencial para a nossa vida.
Não menciono aqui o aspecto determinante, justaposto devido a conformidade dos dispositivos legais. Nem de adaptações nos transportes, ou dos incentivos realizados com outro intuito: o de nos incluir profissionalmente.
É uma questão simples para uns, oculta, indisponível, para a natureza de outros. Falo da empatia, gente. Desse totem, dessa joia forte, densa o suficiente para nos disponibilizar ferramentas transformadoras.
Certa ordem de tesouros exige dos potenciais desbravadores prática, além do  talento bruto e nato. Qual a sua muleta usada, para quando olha para um mendigo na rua? No lugar onde deveria habitar uma pessoa, você vê uma paisagem? O inferno são os outros mesmo, conforme Sartre prenunciou?  
Sinto mais afeto do que estranheza, quando saio pelas ruas. A solidariedade assume os rostos, os contornos mais inusitados e diferentes. Fica como essência, como princípio, uma constatação transformadora: minha vida melhorou, por que além de me desviar dos buracos, busco o olhar das pessoas.
Conseguiremos despertar tamanho impacto, este súbito arroubo de humanidade, na vida de estranhos? Sim, pois entre familiares, amigos e pares, o conteúdo chega, bem definido. E junto aos desconhecidos?
Resolvi testar a acessibilidade atitudinal, durante o pré-carnaval ,saindo sozinho, por dois meses. A regra era colocar o riso acima dos obstáculos, ter com o brinde uma espécie de pacto. Obter diálogo, contato forte o suficiente com a galera animada, das festas.
E assim foi feito.
Transpor a receptividade de tais momentos para o dia dia...Bem, algo complexo...
É preciso manter a cabeça erguida, o corpo atento na hora de passarmos pelas avenidas . Especialmente, com peito aberto, o coração generoso...A vida continua sendo a arte dos encontros.
Quando expandimos a nossa rede de afetos, com gente ainda sem iniciação com  o tema, exercemos uma pedagogia informal. Não menos influente.
Neste carnaval, ao balançarmos com as nossas rodas, pelas ruas, não estaremos paquerando, somente.
Acima de tudo, ocorrerá uma bem vinda e descompromissada reeducação sentimental !
Um abraço para todos.
André Nóbrega.



17 de fev. de 2019

Não nos chame pela sigla, não nos julgue como objeto



            Não creio ser culpa, reflexo do politicamente correto. Fato é que predomina, digamos assim, um cuidado(para sermos elegantes), na hora da sociedade nos classificar. Afinal, sem rotular, taxar julgamentos rasos, imprecisos, como denominar aquilo que ousa, teima em fugir do padrão?
            Os desvios, as fixações neuróticas, com vias de estabelecer um modelo de conduta sexual, um pensamento político hegemônico, configuram uma vertente da psicanálise, da qual nem conheço muito, pela teoria. Contudo, os dez anos como deficiente permitem elencar algumas observações, comentários sobre tal tendência.
Essa ânsia incontida de não aceitação, de cravar um modelo reinante, quanto ao padrão físico ideal, o tom de pele, a raça. Qualquer um nasce com uma dádiva, um dom da vida, para revertermos as expectativas implantadas, em razão de um pensamento ocidental excludente, seletivo, secular e racista, por natureza.
Sendo branco, vindo de uma família com recursos, de fato, demorou a ter noção, ciência da perversidade desse sistema. Precisou uma lesão neurológica devastadora, na potência, força dos meus 30 anos, para entender algumas verdades fundamentais.
Dois anos depois disso, quando, graças a muita fisioterapia, esforço, decepções, dores, consegui ter forças para tocar a cadeira de rodas sozinho, na rua, me veio uma sensação devastadora: eu havia perdido o direito de ser reconhecido, chamado pelo nome.
Pouco importava ao outro se eu tinha formado em cinema, trabalhado como crítico de filmes, e sabia de cor o repertório do Molejo, É o tchan e do grupo Sorriso maroto. O aspecto, o contorno fundamental, para tantos olhares, passou a ser uma cadeira. E por um bom tempo deixei de ser André, sem a princípio saber muito o porquê disso.
As siglas também apresentam uma tonalidade canalha, um tanto quanto funesta. Ao reduzir as particularidades, talentos de alguém a um conjunto de letras, ocorre uma morte. São sepultados os traços do sujeito, em nome de uma categorização aceitável, crível quando para pesquisas de dados, acerca das características, tipos de deficiência. Em amostragem como o IBGE realizou, em 2010.
Além desse contexto, com certeza, no indicativo feito para as vagas de trabalho, os assentos nos transportes coletivos, cabe o uso da sigla. Para toda a sorte, ordem de direitos sociais por nós adquiridos. Com exceção disso, por que cair ainda na mesma malha fina, deste terreno pantanoso? Um hibrido, formado pela ausência de sensibilidade crônica, déficit de bom senso e espírito de porco mesmo. Vamos dar nome aos bois, suínos, burros e nos deixar livres da obrigação, dessa mania baixa em quererem nos reduzir.
A partir de agora, ao invés de cadeirante, pcd, portador de necessidade especial, pode tentar algo tão inovador, quanto essencial?
Nos chame pelo nome!!
Um abraço para todos.
André Nóbrega


Foto tirada pela querida, talentosa produtora cultural, atriz e música Natália Lebeis.

10 de fev. de 2019

Inclusão profissional, sob a ótica de um pcd.


        Em tempos de crise econômica, recessão, voltam ao glossário das notícias, dos jornais, vocábulos um tanto incômodos, maléficos para o cotidiano comum a momentos de prosperidade.
No lugar do pleno emprego, da inclusão através de políticas sociais afirmativas, como o exemplo consagrado surgido, a partir do advento das cotas, tornam a ter destaque, no ritmo , na vida das pessoas, os agravantes trazidos pela escassez de emprego.
A falta de vagas configura um problema crônico, flagrante e comum não só a memória, como também, a construção de futuro do país. Porém, analises conjunturais à parte, parto aqui para o que interessa, configura o eixo temático principal desta coluna. Como o mercado profissional enxerga a inclusão da pessoa com deficiência?
Por experiência própria, posso revelar um dado perverso: nas agências de emprego, as vagas oferecidas atendem a um perfil, a um tipo de função diferente da que poderia executar. Os trabalhos no almoxarifado exigiriam um esforço físico desproporcional , em desalinho com a minha condição, por que requeria movimentos, ações desaconselháveis a alguém com dificuldade de locomoção. E também, para aquele que necessita de um trabalho permanente, exaustivo de reabilitação para prover melhoras, na minha condição.
Ressaltar o esforço de inclusão feito, insuficiente ainda para atingir um número considerável de pessoas com deficiência. Bem comum haver um tratamento uno, generalista, um tanto quanto paternal, vindo do mercado de trabalho.
 Falo especialmente da tendência a tratar todas as deficiências como sendo uma coisa só. E como consequência, as resoluções dadas para a questão mereceriam sempre a mesma abordagem. Sempre o único, preguiçoso desenlace para uma questão múltipla, por excelência.
Oferecer a mesma vaga de emprego, como auxiliar de escritório, para quatro candidatos. Um com baixa visão, o outro com nanismo, o terceiro com deficiência física, e o último, com deficiência neurológica. Todos reunidos pelo mesmo motivo, a mesma questão. Por atenderem aos requisitos da sigla pcd. Sinceramente...Isso é muito pouco.
Para complicar tudo a mídia nos faz um desserviço . É imbatível a ânsia, o apelo em querer nos retratar como super-heróis. Como seres imbatíveis, acima e além de qualquer intempérie, esforço ou contratempo.
Quantas vezes você viu a notícia do cadeirante formado em Direito? Da vestibulanda com um tipo peculiar de autismo , capaz de coloca-la, orná-la a uma condição intelectual de um gênio, porém, recém-egressa de uma peneira dificílima, como é a regra, a lei, para entrar numa faculdade de medicina? A mensagem subliminar é clara: não é tão difícil assim para gente obter êxito, vai? Basta  sermos guerreiros superdotados, com QI, capacidade de registro, arquivamento de imagens superior ao de um computador.
Ou então, quem sabe, entrarmos para o ‘’agronegócio’’’, passamos a agir conforme a natureza, o comportamento de um laranja. Do famoso ‘’Queiróz’' , presente no mais alto, nobre escalão, da nossa trágica, combalida república...
Só que não...Ainda é possível, palpável buscar uma integração ao mercado plena, proporcional as nossas limitações, mas ao alcance, no tamanho, na medida certa do tanto de talento, valor e encantamento de que poderemos oferecer a sociedade.
Sim, por que, como diria a letra dos Titãs: a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, ballet.. A gente quer saída, para qualquer parte.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.




3 de fev. de 2019

Atire a primeira roda quem nunca ouviu isso

André Nóbrega




            -Deus só dá a cruz a quem possa suportar!
            -Você é um exemplo de superação!
            -Sem querer ser mal educado, mas você ficou assim como??
         As barreiras, os entraves visíveis, a fazerem parte do cotidiano são meio óbvios, fáceis de serem identificados. Mesmo para o observador incauto, desatento as questões comuns, específicas as pessoas com deficiência, difícil não perceber a irregularidade das calçadas.
 Não notar a falta de estabilidade trazida, causada pelo calçamento irregular das cidades brasileiras. Aqueles de bom tato, afeitos ao exercício da cidadania, o desrespeito as vagas especiais também configura, aponta um caso claro, esdrúxulo, de falta de sensibilidade, respeito aos nossos direitos.
        Contudo, existe um fato mais difícil de mensurar, causado pelo impacto de certas falas. Persiste, na repetição de alguns dizeres, ditos a exaustão, a expressar um lado um quanto perverso da questão. Falo aqui da total indiferença, despreparo, no âmbito coletivo, de como o nosso sentimento é considerado.
       Sim, meus queridos e queridas, pois, no peito desafinado de uma pessoa fora do padrão físico, com Down, autismo, baixa visão, também bate um coração. Com total reverência, orgulho e gratidão a obra deixada por Tom Jobim e Newton Mendonça.
      Quando se reduz a complexidade de uma deficiência a uma espécie de tabuleiro cósmico-missionário, coloca-se um desvio para o tema. Falar de um fardo pesado demais para ser carregado, com um peso tamanho, incômodo, me coloca então, pelo raciocínio levantado, como alguém a ser crucificado.
         Nem como cruz, muito menos como mártir. O decantado lugar do exemplo não revela uma obviedade. O esforço em excesso para realizarmos tarefas simples, cuja mera execução exige um suor, uma entrega maior, revela um ponto essencial. Para deixar a discussão principal subtendida, posta em escanteio.
      Deficiente é o espaço, o lugar incapaz de prover condições mínimas para circularmos, gente. Para estarmos na pista, participarmos da vida, é inevitável enfrentarmos alguns perigos, entraves e obstáculos.
      O saldo disso nem sempre é heroico, garanto. Muitas quedas, tanto com relativo, ou alto grau de perigo, risco ao meu bem-estar, mas....Fazer o quê? O chamado das ruas, de brinde, possibilidade de encontros, festas, sobrevive, forte...Nessas calçadas ainda pontuadas pela dificuldade em me locomover.
    Quanto a tara, obsessão, em querer saber como a condição da deficiência surgiu, apareceu em nossas vidas, nenhum comentário a fazer. Creio, acredito piamente na evolução do indivíduo, durante o ruminar da sua jornada .
     Enquanto o mundo ideal, o éden da acessibilidade universal não é estabelecido, que  tal reformular alguns questionamentos básicos, no trato, no convívio com as pessoas com deficiência?
      Um abraço para todos. 





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