25 junho 2016

Todo militante ativista é um pouco mendigo.


  Amigos leitores,se tem uma coisa perturbadora, capaz de sempre me fazer alimentar um sentimento de negatividade quanto ao destino da raça humana, isso tem a ver com o aumento da população de rua. 


    Pior do que qualquer buraco, ou pedra portuguesa estirada pelo chão, é encontrar pelas madrugadas os corpos mal encobertos por cobertores curtos, comprimidos e entregues a sabe lá de Deus que tipo de sorte.

 Em comum com os mendigos,com a população maltrapilha que se espalha por todas as cidades, há o sentimento de exclusão. 

  Ainda que a comparação seja injusta, indevida em muitos aspectos, consigo pontuar com clareza alguns aspectos que nos unem. Pois, o sentimento de estar desconjuntado, fora do ritmo da vida, ainda me assola. 

  A pessoa com deficiência no Brasil rema contra uma maré constante de dificuldades. Para exigir coisas básicas, como poder circular pelas ruas,ter direito a melhores condições de trabalho,nós sofremos com a visão tacanha da política.Muitas vezes,ficamos submetidos a ações do governo que têm o mesmo efeito de uma esmola. 

Estar invisível, pouco afeito ao processo de participação de um viver pleno, em ressonância com  as demandas exigidas pela sociedade, é o risco que todos corremos caso aceitemos o peso da balança injusta.Porque muitas oportunidades ainda teimam em nos favorecer. 
 
 
Quando preciso falar para alguém sair da vaga especial,quando peço para algum motorista que retire o seu veículo do lugar reservado ,ganho mais familiaridade com a rotina dos desalojados.

   Só que ao invés de pão, eu clamo por um grão de consciência das pessoas.Porque nos falta uma lógica de integração. 

  Cada vez mais nos atinge a falta de uma visão sistêmica,capaz de analisarmos o país com maior humanidade.Estamos sempre divididos,conscientes das nossas ideologias.

   Em tempos de recessão,onde até os reinos que eram unidos debandam por um esforço de separação,nós compactuamos apenas com quem pensa ,age e recebe dividendos de forma compatível com a nossa.

 E,assim,muitos caminham,com larga insensatez e um colo de mãe feito para abrigar a própria intolerância.Não surpreende que aqui no Brasil se confunda Direitos Humanos com a defesa de bandidos.

   Lógica miserável essa a que glorifica o padrão. Maldita toda e qualquer exaltação ao corpo ideal, ao carro que nunca teremos, ou a ausência de fraternidade por qual estamos sendo guiados.

Mesmo assim,nem tão certo,mas nem muito torto,eu prossigo.

Enquanto passo por alguém em situação de abandono, não faço muita coisa. Apenas procuro andar silencioso. Em situações assim, eu zelo pelo sono dos desassistidos como o amor nutrido pelos meus familiares.

Isso é muito pouco.

 Eu queria me livrar dos andadores, das muletas que teimam em me perseguir .Pelo menos uma vez ,gostaria de erguer as mãos ao meus anônimos vizinhos,tão desprovidos de tudo.

 Mais relevante do que qualquer campanha de inverno,visando a arrecadação de cobertores é a nossa luta, que almeja a consolidação de uma existência mais consciente e inclusiva.

 Para que um dia nenhum de nós, em nenhum canto,ou avenida ,precisemos mendigar por aquilo que deveria ser obrigatório e justo.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.



22 junho 2016

Conhecendo o badminton adaptado.


Hoje fui conhecer mais um esporte que a prefeitura de São José dos Campos-SP esta tentando desenvolver para pessoas com deficiência, o badminton.
É uma atividade física bem interessante que exige movimentos rápidos e muito reflexo, mas, hoje fui apenas para conhecer e confesso que gostei, por isso pretendo voltar mais vezes ai vou passando os detalhes aqui no Blog.
Vui...
Wanderlei Marques de Assis

18 junho 2016

Vai chegar o dia

 Vai chegar o dia em que a palavra acessibilidade estará gasta, vazia devido a linda estrada de militância,que muitos antepassados nossos souberam percorrer.Todos estaremos incluídos,enfim integrados aos espaços.

 Finalmente, o direito de ir e vir estará consagrado. Isso não precisará estar escrito em nenhuma constituição. Nenhuma lei precisará mudar aquele jeito nosso, a maneira de conceber a mais nova e revolucionária cidadania.

 Porque vai chegar o dia onde andarei pelas noites tranquilo.Sem me preocupar com buracos nas ruas, a falta de um transporte público digno,e sinais de trânsito de duração assassina ,a me obrigar a fazer malabarismo no asfalto.
  
 Para cada andador quebrado haverá uma mulher linda, parada na esquina, pronta para me dar carona. Será um ato tão espontâneo, um gesto formatado por tanta gentileza e amor ao próximo, que não estranhem se essa mesma mulher linda quiser viajar comigo. Embarcaremos numa viagem de pura inclusão, rumo a praias desconhecidas na Bahia.

 Vai chegar o dia na qual lembraremos sem saudades daqueles dias. De um tempo confuso,bem distante.Segundo os relatos apresentados pelos livros e filmes,quem apresentasse uma condição física ou mental diferente recebia um nome estranho.Era classificado,reconhecido como deficiente.

 Daí, recordaremos que a falta está longe de ser a chama que nos movimenta. Brindaremos com louvor, orgulho, pois mesmo quando vivíamos encobertos pelo manto da desigualdade, nós mantivemos a vida aquecida.

  E,ao contrário de um mito difundido,comumente espalhado na era das desigualdades, nós, de forma alguma quisemos servir de exemplo para alguém. Ouviremos sem atenção, alegria quando alguém quiser propagar uma lenda urbana, também atribuída a essa temerosa época.
  
  Era comum nos enxergar como coitados. Teria isso a ver com uma crença estúpida. Como se estivéssemos aqui para sofrer, como se adorássemos nos fazer de vítimas das circunstâncias e reclamar de tudo. Como no passado alguém pôde pensar isso da gente?

 Agora, a madrugada que avança chega bem fria,sem me abraçar com grandes possibilidades.

 Vou acordar amanhã sem encontrar nenhum resquício do quadro acima relatado. No entanto, isso não pode minar o desejo por uma sociedade mais justa e igualitária.

 Ainda vai chegar o dia em que as diferenças não vão pesar tanto.

 Fiquemos firmes,fortes em nossa luta.

 Um abraço para todos,


 André Nóbrega.

  

12 junho 2016

A solidão pode ser uma deficiência.

   Para quem quiser ouvir uma história romântica, recomendo ouvir alguma coletânea do Roberto Carlos, ou mesmo, uma lida pela obra do poeta Vinícius de Moraes.

  Hoje muitos comemoram o dia dos Namorados. A minha sintonia com a data é a mesma de um ateu órfão na ceia de Natal. Não existe muito que comentar sobre isso.

 Porque calhou da semana de provas cair na faculdade logo nessa semana que começa.Portanto,a minha paixão é destinada somente aos livros.Vivo um caso de amor desmedido,inevitável com o saber.Nem sinto falta da mulher amada, a me chamar para a coberta.

 Vivo casado com uma causa. Ela me absorve de tal maneira, me preenche com tanta felicidade, que os prazeres e alegrias do amor pouco me atraem. Ainda que isso signifique uma frustração para tantas mulheres, todas sedentas, dispostas a me conhecerem.

 Mesmo sem ser o Papa, já me acostumei com a castidade exigida pela cruzada da inclusão. Para me dedicar de corpo e alma à luta pela acessibilidade, decidi inibir os meus desejos. Tal sacrifício não será em vão . Se isso já valeu para os santos, por que não se aplicaria a mim também?

  Já fiz tantos versos para alimentar histórias de afeto. O percurso sentimental foi até bem preenchido. Não tem razão para lamentar a data de hoje. É apenas um empreendimento comercial, bancado pela indústria de chocolates, pelo poderoso lobby dos floricultores e pela implacável associação das indústrias de cobertor para dois. Já li no facebook umas cinco teorias sobre isso.
  
 E, na boa, vou reclamar de quê??Com NetFlix,comida congelada e tantos livros para serem lidos,como eu posso me sentir sozinho?
  
  Agora me confundi. Hoje é primeiro de abril ou dia doze de junho?Sei lá, com as provas, tanta matéria por estudar, eu posso me confundir. Daí, seria perfeitamente comum eu misturar as estações, visto que o meu humor está azedo que nem limão estragado. Preciso separar bem as datas do meu calendário.

  Porque não tem desculpa, nem mimimi.Vou à caça,dar a cara à murro e fazer o possível para ano que vem mudar o meu estado civil.Porque a solidão pode ser uma deficiência.

 Estar sozinho pode virar uma conveniente muleta.Principalmente se acreditarmos que vivermos sem compartilhar nossos momentos é uma imposição do destino,uma consequência vinda junto com as limitações com as quais nós precisamos conviver.

 Portanto, começamos a existir regidos por um princípio da negação.Quanto mais crédito darmos a essa crença,mais aprisionados ficaremos.

  Ficar em casa contra a vontade é sempre um castigo. Ainda que não possa transitar pelos lugares como gostaria, ainda que a falta de acessibilidade seja um empecilho para eu me divertir, predomina de forma mais intensa a vontade de conhecer uma cabrocha, capaz de percorrer comigo intensas avenidas.

  Fazer mais com menos. Não posso correr, nem falar como antes. Porém, cativar as pessoas não é uma coisa tão difícil.

 Talvez,eu esteja construindo barreiras. Com isso, também impedi que pessoas interessantes se aproximassem.

  Porque a fase de adaptação da realidade, mudança drástica de hábitos já passou. Enfrentamos muitas dificuldades em nosso cotidiano.Contudo, podemos ser viajantes solitários, ou tentarmos embarcar numa navegação a dois, rumo a continentes ainda não identificados.  

 Temos sempre a chance de construir inúmeros dias e noites dos namorados inesquecíveis.
  
Um abraço para todos,


 André Nóbrega. 


04 junho 2016

O que a Nise da Silveira pode nos ensinar.

 O Brasil passa por uma crise de representatividade. Na atual conjuntura, qual a grande liderança nacional capaz de angariar qualidades fortes o suficiente para nos orgulhar?A situação de descontentamento não é privilégio da nossa classe política, grupo com o qual já mantemos há algum tempo um sentimento de desagravo.

 Na antiga terra do futebol, na seleção do pós 7 a 1 você consegue identificar no time do Dunga muitos jogadores com o futebol grandioso para nos fazer acompanhar os jogos do time da CBF com algum interesse?

 Triste é o país que depende das ações de um juiz, que aplaude com fervor as ações de uma operação contra os mal feitos da política como se fosse uma cruzada consagradora, capaz de lavar todos os pecados cometidos por aqui desde a chegada de Cabral,em 1500.

 Cada vez mais eu busco o exemplo de figuras do nosso passado. Tivemos sim pessoas que atuaram como autênticos multiplicadores de sonhos. As sementes plantadas por esses tesouros é tão sólida que precisa ser reforçada.O esforço contínuo para a perpetuação da obra por eles deixada tem que haver.

  Por que,afinal,a herança deixada por avatares como Rubem Alves,Tom Jobim e Darcy Ribeiro deve ser esquecida?Em tempos incertos, caracterizados pela falta de justeza moral, pela desconfiança geral quanto aos rumos do nosso país, não ter uma liderança em quem confiar já é algo temeroso. Teremos perdido a capacidade de construir futuros transformadores da realidade?

  A psiquiatra Nise da Silveira, através do revolucionário trabalho realizado pelo ‘’Museu do Inconsciente’’, deu outra dimensão ao modo como os manicômios brasileiros tratavam os seus pacientes.

 O filme “Nise-o coração da loucura’’,dirigido por Roberto Berlinder,é uma aula de humanidade.A história nos coloca em contato com uma sensação diariamente minada pelos massacrantes telejornais.Depois de assistir o filme é possível voltar a ter orgulho de ser brasileiro.

  O filme começa em 1944, ano no qual Nise da Silveira é reintegrada ao serviço público, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II.Nise,de imediato,se defronta com a conduta brutalizada,desumanizada vinculada aos internos da instituição.Eletrochoques,lobotomia eram práticas permitidas,avalizadas pela psiquiatria então vigente.

  Transferida para a Terapia Ocupacional, um setor esquecido,tratado como área de pouca relevância pelos médicos do Centro Psiquiátrico ,Nise inicia os seus trabalhos.

  Ao invés de executar pura e simplesmente tarefas de limpeza, manutenção do lugar, a psiquiatra cria ateliês de pintura e modelagem para que todos os pacientes se expressassem da forma que melhor lhes conviesse.

 Um canal de extrema evolução foi aberto. Pessoas segregadas, sem terem a menor chance de poderem se manifestar, de conseguirem dialogar ,estabelecer com a vida uma forma de expressão, passaram a obter um canal de estímulo.

 A falta de acessibilidade muita vezes nos isola. A dificuldade que temos para viver, trabalhar e nos divertir, muitas vezes nos desanima. Se essa sensação evoluir muito, acabamos por optar pela comodidade do lar,por não participarmos da vida como poderíamos.

 Pelo fato das dificuldades aparecerem de forma mais contundente, podemos enfim perder o ânimo, depois,não suportamos os pesos trazidos por tantas diferenças. Diante de um contexto tão desfavorável, não lutarmos por nossa cidadania e acharmos normal sermos excluídos do processo de inclusão passa a ser algo automático.

 Nise da Silveira construiu uma estrada para quem parecia inutilizado, e se mantinha hibernado no limbo da existência. Os pacientes da instituição, antes de conhecê-la,em muito se assemelhavam com animais abandonados,entregues à própria sorte.

 Mesmo com tantas oportunidades desiguais, não podemos entrar na armadilha do confinamento. Sabemos o quanto a efetividade dos nossos direitos passa por uma luta permanente.

  Não podemos desistir. E,muito menos, abdicarmos de encontrar as habilidades, os talentos capazes de nos distinguirem. Não é somente a falta,a desigualdade, o valor único que nos inspira.

 Queremos mostrar ao mundo o quão talentosos podemos ser.Com mais oportunidades,com certeza surgirão entre nós números artistas,médicos,atletas.

 Sobretudo,haverá a possibilidade para que pessoas plenas da sua capacidade possam aparecer.

 Nós podemos mais.

 Tem dúvidas disso?

 Por favor,então veja o filme ‘’Nise-o coração da loucura’’ e se junte a nossa corrente.

 Um abraço para todos,

 André Nóbrega.


28 maio 2016

Precisamos falar sobre a paquera.



  O sábado à noite é um tempo peculiar, feito para estarmos com quem gostamos. O dia frio ,para os casais cúmplices do seu afeto,serve para fixar aquela dimensão prazerosa do aconchego .

  Bom para quem está nessa. Não é o meu caso. Caso contrário, lhes garanto, não estaria aqui elaborando esse texto.

  Estar solteiro é bom quando é uma escolha. Fica danoso quando se torna um hábito. Pior é quando fica nítido constatar que muito dessa solidão provém da minha deficiência.

 Para melhor explicar, alguns aspectos sociais ficaram prejudicados com a minha lesão. Sempre gostei de ler ,acumular informações acerca de variados assuntos, e,por consequência,bater um bom papo.A minha capacidade de seduzir sempre dependeu da palavra.

  A voz, o equilíbrio, e a coordenação motora fina foram as regiões mais afetadas pela mal conhecida e perigosa Síndrome de Miller Fisher. No início da minha lesão, como tática de paquera, sem a voz de outrora, não sabendo como me virar como cadeirante, resolvi adotar a canalhice como modus operandi para a conquista.

 De forma intencional,quando ia para uma festa,para algum lugar onde não fosse conhecido, eu estacionava a minha cadeira de rodas num canto.Depois,fazia uma cara de cachorro abandonado.Não demorava muito para chegar uma alma caridosa ,e perguntar:”O que houve com você?”.Ou mesmo o clássico:’’Tá tudo bem contigo?’’

 Visto que a clareza da fala não era lá essas coisas, tornava-se fundamental uma aproximação da moça, para eu poder explicar com minúcia de detalhes o meu drama infindável.Nossa,eu mentia bem .Falava que havia acordado diferente,com a certeza de que naquele dia eu conheceria alguém capaz de mudar a minha vida.

 Aceitei ser um cadeirante objeto numa boa. Acolhi a aproximação das desconhecidas sem problema algum, através de uma armadilha ensaiada. A soma da cara coitado com a minha história triste, contada ao pé do ouvido, foi uma tática vencedora.

 Na cadeira todos esperavam uma reação X de mim. A partir daí, ficou mais fácil estabelecer um papel como defesa.Com o andador, o olhar dos outros é fixado por uma indefinição. Por não ser cadeirante, nem andante, a falta de capacidade de me rotular talvez confunda.

 Acontece que a necessidade de estabelecer laços íntimos é uma necessidade saudável,comum a todos nós.

 Tenho dificuldades de chegar nos lugares e nas mulheres que não conheço.O olhar desqualificador,de pena, anestesia boa parte das minhas ambições.

 Talvez,também esteja problematizando demais a questão.Será tudo culpa do frio???

 Agora é o tempo para descobrir outras possibilidades de conquista para o andador. Embora sejamos muito mais que o objeto utilizado para nos locomover.

 Para o deficiente físico a cadeira de rodas, o andador, a muleta, ou bengala é parte integrante,fundamental ao nosso cotidiano.

 Contudo, se vamos conviver com um utensílio essencial para a nossa sobrevivência, por que também não atribuir um caráter menos formal,válido inclusive para paquerarmos,ao nosso meio de transporte?

 Descobri que a cadeira de rodas é ótima para dançar forró.Na semana passada eu consegui dançar funk com o andador.

  Espantei metade da pista com a ousadia. Preciso pensar em outras situações.

 Já é um começo.....

 Um abraço para todos,

 André Nóbrega. 


21 maio 2016

Carta para o amigo que acaba de sofrer uma lesão

   
  Nunca em sua vida houve um tombo tão poderoso. O contato com o chão veio com uma força avassaladora. A queda o pegou de surpresa, e agora o prolongamento do luto parece ser o único caminho possível de ser habitado. Será esse o tom dos seus dias, meu amigo. Por um bom tempo a tristeza o acompanhará.

  Porque é impossível você não se apavorar com o que a vida poderá lhe oferecer agora. A comparação com o passado, a lembrança de como a sua vida era antes de ser deficiente será uma prisão. A perspectiva da sua vida ficará travada, pois agora você está tentando se preparar para um novo tipo de existência.
  
  A família sofre junto contigo. Os seus amigos não sabem muito bem como reagir, e você também não poderá traçar um prognóstico de como ficará a sua vida.
  
  Chore, mas se possível, ao fazer isso, verifique se não haverá ninguém por perto. Crie,se possível, uma hora do choro. O momento no qual você sabe que ficará sozinho. A minha hora do choro era cumprida antes de dormir.Não queria que nenhum parente meu participasse daquele ritual.

  Afinal, ali, eu começava a me despedir da outra vida. O que era possível fazer antes da lesão precisaria ser abandonado, ou passar por uma radical transformação.

  Porém, em dado momento, as suas lamentações, após sedimentarem a função essencial de luto, passam a alimentar uma mágoa. Você, sendo cadeirante, por exemplo, logo perceberá o quanto o mundo  parecerá inabitável para você.

  A grande virada acontecerá a partir de uma mudança de percepção. Quando você estiver possesso, com aquela sensação de extrema raiva, por não conseguir atravessar a rua,usar um banheiro público,saiba que esse sentimento é normal.E sim,essa frustração,sentida de forma recorrente, poderá ser pedagógica.

 Caso você tenha ficado cadeirante agora, não perca tempo. Faça uma pesquisa, identifique a associação de pessoas com deficiência perto do bairro, da região onde você mora. Nós somos um movimento organizado, com ampla disponibilidade para ouvir, acolher todas as suas dúvidas, as suas questões sobre essa fase da sua vida.

 Você nunca estará sozinho, meu amigo. Somos uma nação com mais de 45 milhões de pessoas com deficiência.

 Precisaremos de você para juntar forças, esforços e ações na marcha que visa a nossa integração plena, com o reconhecimento dos nossos direitos e deveres.

 Vamos lá, tem tanto trabalho a ser feito, tanta gente bacana que você precisa conhecer, que não dá mais para você ficar aqui, somente lendo esse texto. 

 Meu amigo, ao invés de ser um simples leitor,que tal ingressar nessa luta?´

 Nós conseguiremos juntos plantarmos sólidas sementes de um mesmo sonho.

 Eu estou certo que a luta só tem a ganhar com a sua adesão à causa.

 Sigamos firmes, há uma estrada longa que precisa ser construída com rigor e dedicação.

 Precisaremos de aliados, pois haverá uma luta interminável pela frente.

 Um abraço para você,


 André Nóbrega.


15 maio 2016

Sobre a eterna chatice de servimos como exemplo



 Nós não temos a obrigação de sermos exemplo para ninguém.Muito menos,devemos sustentar o fardo contínuo de servirmos como inspiração para os outros.Sim,porque a conta nos pesa,bate de uma forma bastante desigual.

 Pois, se para realizarmos as tarefas mínimas,indispensáveis para nos prover cidadania e dignidade é necessário um esforço gigantesco,isso ocorre devido a precariedade dos serviços,das ações do Estado capazes de nos auxiliarem.

 Queria utilizar menos esforço para andar pelas ruas do meu bairro.Queria transitar por aí,pegar ônibus,aproveitar a noite revestido por algumas seguranças.

 Seria lindo me locomover pelas ruas do Rio de Janeiro em paz,sem olhar para os buracos.

  As minhas opções de lazer ficariam enriquecidas caso os gestores culturais tivessem sensibilidade ao tema.
  
  Para obter uma rotina produtiva o meu esforço será maior.Essa força a mais para realizar tarefas simples é uma condição necessária para sobreviver.

 Contudo, o que costuma impressionar as pessoas não é falta de igualdade das oportunidades que sofro,mas sim o esforço fora do comum necessário para executar tarefas que deveriam ser simples.
  
 O foco está errado.Ao invés de enxergarem o problema como um todo,muitos preferem exaltar parte da questão que nos atinge.

 Para nossos amigos, parentes e conhecidos,por uma questão de carinho,genuína admiração,é comovente acompanhar o nosso esforço para participamos da vida.
  
 Porém,o problema é quando essa mesma visão atinge a mídia,o modo como o mundo nos vê.

 Antes de ser um guerreiro,eu sou um cidadão brasileiro.Alguém com direitos e deveres garantidos,mas com outras capacidades que precisam ser reconhecidas,também.

 Nem todo caminho precisa ser cumprido com o fervor,o fôlego de um maratonista.Se muitas vezes o cotidiano nos detona o corpo,faz com que tenhamos a persistência como um pré-requisito obrigatório,é porque não possuímos tantas escolhas para vivermos.

 E,para ser sincero,eu não tenho muita paciência em habitar o status de exemplo,cultivado na mente de tanta gente que admiro.Ao construírem um altar,e fixarem o suor como algo sacro,eles se esquecem,por exemplo, do que é necessário fazer para melhorar as coisas.

 Como confiam demais nessa força de superação, acham que sempre haverá uma mitológica maneira de passar pelas dificuldades. Isso pode ser verdadeiro para o Indiana Jones,o James Bond ou para o super-homem.

 A maior inspiração é a luta pela integração da pessoa com deficiência.

 Para quem insistir em nos colocar num degrau acima,para os que teimam em nos atribuir dons extraordinários e esquecem de considerar aquilo de mais básico do que nos falta,recomendo somente isso:a leitura de autoajuda e a ida ao cinema somente para verem filmes açucarados.

Por favor,a realidade não é assim.

Um abraço para todos,

André Nóbrega. 


07 maio 2016

A prisão do quase tombo

  Um tombo pode ser pedagógico.Cair da cadeira de rodas ,do andador, do trono que ocupamos por ficarmos levitados pelo orgulho pode nos educar.A queda,desde que não nos machuque,não traga um dano físico grave ,por  vezes, nos ensina alguma coisa.
  
 Foram 11 quedas com a cadeira de rodas. Algumas se validaram como noções de como deveria me comportar ,sobreviver aos tempos em que vivi como cadeirante.

  Certa vez,enquanto era ajudado por duas pessoas a descer uma escada,a cadeira escapuliu da mão do rapaz que me ajudava e soltou.Embora não tenha sido um choque sem grandes repercussões,a mesma pessoa que deixou a cadeira cair,veio puxar o meu braço com uma força exagerada.O cara quase me quebrou quando tentava me auxiliar...rsrs

   Já quando fui ajudado a atravessar a rua por um conhecido,conduzido para atravessar a rua com a cadeira de rodas tive outra colisão.O choque produzido pelo bico da cadeira e o meio fio da rua me arremessou na calçada.As pessoas vieram ao meu socorro como se tivesse capotado de um caminhão caído de um desfiladeiro.Do tombo da escada ao choque na rua ficou uma lição.
  
 Após a queda,depois de checar se havia me machucado ou não,deveria também informar as pessoas ao redor que eu estava bem.Se possível,contar até alguma piada infame,tal como esta:se eu caísse não teria problema ,pois do chão não passaria.Ou ainda dizer que se a Lei Seca me parasse poderia ser autuado por direção perigosa,e ter a cadeira de rodas apreendida.Essa estratégia se mostrou eficaz para muitos tombos.

 Problema maior verifico nas vezes em que quase caí.Nos momentos onde eu antevi uma queda.Foram situações de puro instinto e reflexo ,nas quais devido a observação prévia da falha mecânica do andador, eu impedi um beijo com a lona.Ou,para ser mais objetivo,nas vezes,nos instantes antes da roda do andador cair,ou de parte dele se espatifar no chão,e, assim,eu me livrar de um tombo.

 Mas,peraí,se livrar de uma queda não é uma coisa boa?Deveria ser.Porque na minha cabeça teimosa acho mais sólida a contundência de um não.

 Cair,depois,na medida das nossas possibilidades,tentar se levantar é uma condição da vida humana.Porém,ficar na eminência do quase tombo é chato demais.

  O quase tombo me afeta psicologicamente.A pedagogia da queda fomentou boa parte dos meus anos pós lesão.Não caio,mas,também,como o andador em tais circunstâncias fica inutilizado,eu não posso dar um passo adiante.Fico refém da sorte,carente da ajuda de terceiros e obrigado a me acostumar por alguns momentos com a imobilidade.

  No último mês vieram duas situações de quase tombo.Sinceramente,não tenho a menor ideia de como lidar com isso.Ficar encostado num muro,a me equilibrar e depois buscar uma solução não é o problema.O pior é a sensação de impotência,fraqueza que isso gera. 

 Afinal,com a qualidade desses equipamentos ,a transitar por uma metrópole de péssima acessibilidade como o Rio de Janeiro, será que haverá oportunidade de existir uma terceira quase queda???

 Já fiquei um tempo só mexendo pescoço,três anos e meio como cadeirante,e uso o andador faz algumas primaveras.Sempre lutei contra o confinamento social.Busco na rua um complemento para validar a minha experiência existencial.

 Ao lado da solidão de ficar em casa,a prisão do medo foram sempre fissuras capazes de me diminuir.O problema do quase tombo é me tornar um refém do acaso,também contribuir para querer diminuir o meu ímpeto pela vida.

Por isso,preferia a queda.Daí, depois,era só prosseguir,mais receoso com certos cuidados.O quase tombo me coloca diante de uma série de gravidades,tragédias que poderiam ter acontecido caso a minha roda tivesse saído em um outro momento.Afinal,como teria sido se eu não tivesse percebido isso antes de arrevessar a rua?

Odeio certas metades,os pedaços de falta silenciosos,capazes de gerarem dúvida e alimentarem o vazio.

O maior sim da minha vida é aquele que vem corroborar a  luta pela inclusão da pessoa com deficiência.

Do resto,quase nada ficará.

Um abraço para todos.


André Nóbrega. 

01 maio 2016

Depois daquele dia

‘’Ninguém pensa no apêndice a não ser quando chega a hora de operá-lo’’

  Henry Miller, página 98 do livro ‘’Sexus’’.

  Gostaria muito de pensar somente na apendicite nesse momento. Porém, foi a partir dessa operação que adquiri a minha lesão neurológica.

  Depois de uma operação de apendicite eu tive uma interação medicamentosa. Houve um choque na química do meu corpo, e por consequência, a minha imunidade baixou muito.

 Então, me tornei uma presa fácil para uma bactéria oportunista atingir o meu córtex cerebral, uma espécie de meio campo do cérebro. O córtex cerebral é responsável pela fala, pelo equilíbrio e pela coordenação motora fina.

  No dia 13 de maio farão sete anos da malfadada operação de apendicite. A cada ano que passo eu presencio emoções variadas nessa data.

 Para quem tem uma lesão adquirida,não congênita, a data na qual o acidente, o tombo, ou a operação que,de súbito,alterou o curso da nossa existência, jamais passará desapercebida.

 Os últimos sete anos foram intensos, galera. Assim é com todo mundo que precisa conviver com a deficiência. A delimitação física surge assim, sem pedir licença e com capacidade de mudar a nossa vida pelo avesso.

 Quando a deficiência surgiu não tive opção. Ou abraçava um movimento de reconstrução, ou ficava pelo caminho. Desde então, boa parte do que serviu para a vida até os 30 anos precisou mudar. E na marra.

 Nem tudo o que foi vivido nesse tempo serviu como enredo para bolero. Os motivos para o riso foram buscados com avidez. Embora inicialmente complicados de serem identificados, os momentos dignos de brinde foram considerados sagrados.

  Nunca a companhia das pessoas que amo foi tão urgente e prazerosa.

  Definitivamente, o que mudou para melhor foi ter descoberto uma causa tão nobre. Desde quando passei a encampar a luta pela inclusão da pessoa com deficiência, os horizontes se ampliaram.

  Porque estamos em busca do mesmo sol. Afinal, após tantas lutas e revindicações sendo repercutidas pela sociedade, a longa noite da falta da acessibilidade vai perdendo espaço.

  O sol nasce para todos. E a luz irradiada por nossa luta contagia muita gente.Somos mais de 45 milhões de pessoas sedentas por mudanças.Formamos uma nação com o mesmo fundamento e credo:a inclusão plena ,irrestrita da pessoa com deficiência.

  O dia 13 de maio é sempre um dia carregado por um tempero amargo. Contudo, sempre restarão 364 dias no ano para consagrar a nossa luta.

  Sigamos fortes, lúcidos em defesa dos nossos direitos.

  Um abraço para todos,


 
André Nóbrega. 

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