24 de abr de 2016

Um golpe na esperança.


  Um golpe na esperança. Assim recebi a notícia do desastre na ciclovia Tim Maia, ocorrida na última quinta-feira, 21 de abril, no Rio de Janeiro. No mesmo dia em que a tocha olímpica saía da Grécia, o céu do feriado presenteava a cidade com um sol espetacular, sem possibilidade alguma de tempo ruim prevista pela meteorologia.

  Desde então, tenho notado um clima diferente por aqui. No domingo, durante um passeio pela orla, o dia novamente belo não impediu o calçadão da praia de ficar vazio. Vazios ficamos todos. Ontem, ao rodar por alguns bares, não vi nada que lembrasse o estado de espírito que nos tornou conhecidos. As mesas, de tanto espaço, faziam a minha tristeza se perpetuar.

 Nesse feriado todos convivemos com um luto. Feito uma quarta-feira de cinzas prolongada. Em particular, o tombamento na ciclovia ruiu um pensamento meu cultivado ao longo dos tempos. Eu acreditava no legado que os Jogos Paraolímpicos pudessem trazer à nossa causa.

  Quem é deficiente físico no Brasil precisa lidar com imprevistos. Não temos escolha, para executarmos atos simples corremos riscos. A falta de condições é um dos alimentos para brigarmos por melhoras na nossa vida. Porém,diante de uma tragédia como a ocorrida na última quinta,eu revejo alguns conceitos meus.

  Entrei em 2016 agradecido por viver um momento histórico para a nossa luta. Pensava comigo: ’’além da Lei Brasileira de Inclusão, nós teremos os Jogos Paraolímpicos’’.

 Não tenho dúvidas quanto ao sucesso esportivo da empreitada. Nossos atletas promoverão um reencontro com um sentimento há muito perdido. Cada vitória nossa, cada medalha no peito nos chocará com um pensamento impossível de ser conjugado atualmente: o orgulho de sermos brasileiros.

 Ainda entristecido, procuro evitar ver a imagem da onda que despedaçou a ciclovia. O que ruiu foi um modo de fazer política obsceno, maculado pela corrupção, pela total falta de respeito com a vida das pessoas. Essa conduta sem noção ninguém aguenta mais. Batemos todos os recordes da canalhice possíveis.

 Mesmo assim, precisamos crer na força dos atletas paraolímpicos. Deles virão os maiores legados para o Brasil que precisamos construir.

 Aquela onda que se debateu contra a ciclovia interrompeu trajetórias de cinco pessoas,sacolejou a última fé restante quanto ao sucesso organizacional dos Jogos no Rio.

 Mas, a nossa luta prossegue,resistindo a maremotos, insanidades políticas e a toda privação que impeça a nossa cidadania.

 Apesar de todos os pesares, precisamos resistir. Nada nos virá fácil.

 Um abraço para todos,


 André Nóbrega.    


18 de abr de 2016

Para o Nick Vujicic presente em cada um de nós


   Na Rede Sarah,durante a minha primeira sessão de terapia especial em grupo,  a instantânea injeção de ânimo veio com o exemplo do australiano Nick Vujicic.Os vídeos à disposição no You Tube corroboram isso.Vale muito a pena conferir.

   O australiano Nick Vujicic nasceu no dia 04 de dezembro, no ano de 1982 em Melbourne(Austrália) sem as extremidades do corpo.Como pode alguém existir, habitar e planejar a vida sem os braços e pernas??Isso pressupunha um atrevimento.A comoção familiar era prevista,ela foi contraposta pela constatação de que Nick,apesar das deficiências físicas encontradas, era um bebê saudável.

  Um elo fixado pelo amor absoluto foi criado entre os membros da sua família. Os cuidados ,o amor recebido em casa não impediram os embates do menino em sua vida escolar.Nick Vujicic não possuía a aptidão física para acompanhar as atividades de todas as crianças da escola.
 
 O inconformismo,a rejeição inevitável o condimentaram a uma carga elevada de sofrimento.O apreço familiar,além da inacreditável vontade de reação fizeram insurgir nele uma atitude fenomenal.O processo doloroso dessa fortaleza australiana é verificado no vigoroso consultor empresarial com o qual nos deparamos hoje.Para o grupo de terapia do Sarah foi um início animador.Sobretudo para sedimentar uma convivência como a que o grupo de terapia intensiva iria encarar.

   Além de mim,havia naquele grupo dois cadeirantes recém-lesionados e outra pessoa com uma doença congênita,que veio a se tornar uma valiosa amiga minha.Ninguém se conhecia anteriormente.A conexão do grupo começou a ser alimentada pelo exemplo transmitido.

 Nós estávamos incentivados pelas habilidosas colocações de uma psicóloga e uma assistente social,ambas especializadas no tratamento de situações traumáticas.Aos poucos, o grupo foi timidamente partilhando visões, para em seguida, promovermos um compartilhamento das vivências passadas.Havia muito a ser dividido e após quatro reuniões, todos os envolvidos ficaram transformados,frutificados pela oportunidade oferecida.

  O exemplo do Nick Vujicic foi o marco inicial para o sucesso da terapia em grupo. Contudo, pelas condições do seu delicado quadro médico e a sua extraordinária força de transformação, constitui uma exceção clara.

  Ninguém precisa começar tocar violão com a obrigação de se tornar um Baden Powell, ou de começar a jogar futebol e logo ser o novo Messi.Os limites são grandes amigos nossos, a convivência com eles nos disciplina , nos condiciona a melhorar.

  Mesmo assim,é uma relação de amizade, onde o cuidado e o o respeito precisam estar bem determinados.A superação,a gana e vontade de viver são características comuns a todos nós.Mas o australiano Nick Vujicic condicionou tudo isso a uma prática existencial magnífica.

Que nós consigamos alimentar o Nick Vujicic presente em cada um de nós.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.




11 de abr de 2016

A legião de seres resilientes,tenazes.

  Sou guiado por algumas situações.Quando estou na rua sempre me atento para encontrar algum cadeirante,alguma pessoa com deficiência que possa estar perto de mim.E as razões são muitas para isso acontecer.
  
 Quando encontro pessoas que optaram por estarem na rua,mesmo com as reconhecidas adversidades com as quais precisamos nos defrontar,fico tomado por um sentimento de satisfação.

  Apesar dos pesares,continuamos na luta pela interação social. A rua,mesmo com seus empecilhos,é também o lugar para conhecermos pessoas,passearmos.Podemos sentir a vida com mais força quando saímos de casa.
  
 Ao procurar nas ruas por pessoas com deficiência eu alimento a minha militância.

 Embora a demanda da acessibilidade seja um fenômeno incontornável, os esforços para lidar com a questão ainda ocupam um posicionamento político tímido do nosso governo.

 Os espaços para a circulação nos desfavorecem. No entanto, para fazer valer o conceito de cidadania que nós desejamos,primeiro nós precisamos ser notados.

 Quando mais pessoas com deficiência nas ruas trabalhando, tentando usar o transporte público,maior será o olhar da sociedade sobre as nossas demandas.

 A invisibilidade nos persegue. Ficamos muitas vezes mais íntimos com o mundo das faltas.Na maior parte das vezes é mais fácil computar a quantidade de direitos que não nos atendem.A semente,a necessária vontade para fecundar mudanças não são alimentadas.

  E,realmente,se cada um de nós parar,começar uma lista do que poderia melhorar, teremos todos itens variados para enumerar.Para não dizer infinitos.
  
  Acredito no valor dos pequenos gestos.Percorrer a cidade com o meu andador,andar de ônibus nunca são ações fáceis,de tranquila execução.

  Porém,por ser teimoso e crer muito na luta pela inclusão ,eu adoro encontrar nas ruas pessoas , gente com uma rebeldia semelhante a minha.Aqueles cuja deficiência permite levar  uma rotina produtiva.  

 O inconformismo, quando bem alimentado,é um capital poderoso para solidificar mudanças.Vai demorar muito para a acessibilidade ganhar a atenção de que lhe é devida.As mudanças capazes de melhorarem a nossa realidade demoram a acontecer.Além do mais,a evolução nunca é compatível,nem proporcional ao que precisamos para conseguirmos viver com dignidade.

  Ainda precisarei andar um bocado por ruas esburacadas, avenidas com sinalização desfavorável,a me obrigar a atravessar a rua em tempo sempre difícil de ser cumprido.

 Mesmo assim, a alegria sentida a cada vez que encontro cadeirantes na rua me impulsiona.Não estou só nessa luta.

  Existe uma legião de seres  resilientes,tenazes,que,mesmo com tantos obstáculos,sempre prossegue firme em sua caminhada.Vejo isso sempre nas ruas.

  Que sejamos sempre assim.

  Um abraço para todos,

  André Nóbrega.




3 de abr de 2016

O bar que foi a minha reabilitação existencial

   O momento pós-lesão é sempre um calvário.Além de ser penoso para quem acaba de sofrer o baque,também se mostra como uma situação complicada para os nossos familiares.Ninguém está preparado para o fato;lidar com isso não é algo a ser lido em nenhum manual.

 Comigo, além da fisioterapia, computo outros fatores para a minha reabilitação. Primeiro vem o amor incondicional dos meus pais, do meu irmão, que mesmo confusos, entristecidos com a situação, foram pródigas fontes de incentivo. Classifico a força dada por amigos,amigas,primos,primas como algo indispensável para achar força naqueles tempos sombrios.

 Mesmo assim, predominava um evidente desconforto com a situação.E não era para menos.Até os meus 30 anos,eu corria,sorria e jogava bola como qualquer pessoa comum.E,de repente,não mais que de repente,vem uma lesão neurológica e muda tudo.

 Fiquei seis meses conseguindo mexer somente o pescoço,com o corpo paralisado,totalmente atônito,inseguro quanto a qualquer perspectiva de futuro.Sem a família,as visitas de pessoas ansiosas para me encontrarem,saberem como eu estava,teria sido quase impossível prosseguir sem enlouquecer .

 O terceiro fato que eu classifico como fundamental foi passar a ter frequentado um bar, bem perto da minha casa. O bar Rebouças me acolheu, reconheceu de imediato a pessoa que ocupava a cadeira. Não era um cadeirante tristonho a vagar pelas ruas. Eu era o André, doido pela coca-cola em garrafa do lugar,e querendo achar um espaço para recomeçar.

 Meus novos amigos, ao invés de terem pena de mim,escolheram brindar à vida comigo.

  Embora tudo seja difícil para a gente, eu defendo o direito sagrado, constitucional de termos um espaço para rirmos, falarmos besteira, paquerarmos e comentarmos trivialidades.

 Esse tesouro das pequenas coisas, essa poesia que o cotidiano pesado insiste em nos afastar, pode ser alimentada.

A minha fisioterapia existencial foi feita nesse bar. Ali tem sido o palco dos meus melhores momentos. O drama é sempre suavizado pelas piadas, pelo clima bem humorado, informal e despretensioso comum a tais estabelecimentos.


Porém, o bar Rebouças é diferente. Ele faz com que você de imediato se sinta à vontade com o ambiente. Por ali trabalha o inacreditável Jorginho,já eleito o melhor garçom do Rio.Lá mesmo,encontrei uma galera que passou a me levar em casa com a cadeira.E depois, começou a me chamar para festas,viagens,churrascos.

 Dedico essa crônica a todos os meus amigos, amigas desse bar fantástico, e dizer que o meu caminho ficou muito mais fácil quando passei a conviver com vocês.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.






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