27 de mar de 2016

A nossa Páscoa fundamental de cada dia


 Dentre todas as festas do calendário cristão, a que mais me representa, me emociona é a Páscoa. E nem é pelos chocolates,posso lhes garantir.Sou tocado sobretudo pela simbologia da data.

 Afinal, hoje ,no domingo de Páscoa ,a ressurreição de Jesus Cristo é evocada de uma forma muito bonita.É um tempo que nos convoca a uma reavaliação obrigatória,feita sem muito rigor,naquele efeito prazeroso de um almoço junto com a família.

  Credito a capacidade de se reinventar como sendo uma qualidade essencial, para toda e qualquer pessoa. No nosso caso não existem muitas opções. O espírito de renovação, a capacidade de nos insurgimos após as piores quedas não é uma escolha.

  Temos que alimentar uma condição para a Fênix,a ave mitológica que renasce das cinzas,voar sobre certos momentos da nossa trajetória.Isso é um pré-requisito para vivermos. Estamos numa sociedade desigual, diferente em relação as oportunidades que nos são oferecidas.Não é por sermos perseverantes,por alimentarmos como princípio de vida uma força de resiliência que nós sejamos especiais.No entanto,o talento para ressurgirmos talvez nos torne mais interessantes.
  
  A nossa Páscoa fundamental de cada dia acontece, e sem o sabor doce conferido aos ovos de chocolate.Somos consagrados pelo princípio dessa significativa data quando necessitamos pegar um ônibus,e, para cumprir o feito,encaramos ruas perigosas, a boa ou má vontade dos motoristas que poderão ou não parar com o veículo.E,depois,ainda ficamos em assentos mal conservados.

 Nós ressuscitamos em situações assim porque matamos muitos sentimentos autodepreciativos. Na rua,ou você vai firme ou ela te racha.Não dá tempo para pensar muito,sobra espaço na mente para os detalhes do caminho a ser feito.Depenamos a possibilidade de sentirmos pena de nós mesmo quando conseguimos trabalhar.

  Quando aplico o meu saber, a minha inteligência em projetos relevantes, eu revivo o meu potencial criativo.Cada suor meu consolida a ideia que me transformo em alguém melhor,à medida em que vou me descobrindo como ser responsável,cidadão capaz de contribuir pela construção de uma sociedade mais justa,igualitária.

  Acho a expressão matar um leão por dia insuficiente, imprecisa para todos nós.Sim,é do conhecimento geral o caráter de certas circunstâncias presentes em nosso cotidiano,onde precisamos executar vários malabarismos.Atravessar a rua é uma ação tranquila para quase todo mundo.Nem sempre isso acontece conosco.Contudo,não é desse esforço que eu tiro as melhores lições.

  Vale para mim o esforço constante de manter o prumo, o fôlego nas provas monumentais colocadas pela existência. Termos o direito constitucional de ir e vir violado, não possuirmos oportunidades de trabalhos condizentes com a nossa vocação e valor intelectual,e ainda lidarmos com a pequenez de certas figuras. Por isso cada vez mais eu consagro o dom para ressurgimos,de forma teimosa e constante para melhorarmos.

 O samba das dificuldades toca sempre.A fala desanimadora,vinda do nosso íntimo,a nos convocar um convívio com o desespero, é feito um pandeiro mal tocado.Na cadência dos nossos sonhos nós reaparecemos na avenida,dia após dia.Mesmo com a voz cansada,as pernas bambas,e o coração palpitante,eu não posso perder o ritmo da música que me eleva .E quem dá o tom dela é sempre o som convocado pela ressurreição.

O domingo de hoje nos lembra uma qualidade que já desenvolvemos faz tempo.

Que a cada renascimento nosso nós voltemos mais plenos, aptos para sedimentarmos o nosso caminho.

Uma feliz Páscoa e um abraço para todos !


André Nóbrega.  


20 de mar de 2016

E a inclusão?Como fica??



   Vivemos um Fla x Flu ideológico,onde o debate foi trocado pelo embate.A capacidade de ouvir o outro não vale nada.A tolerância com a opinião de quem pensa diferente acabou.É preocupante ver essa conduta de guerrilha se proliferar pela internet.

  Como falar da inclusão da pessoa com deficiência nesse cenário?Porque tratar da questão implica considerar sentimentos antiquados nas atuais práticas de afeto.Em especial,em situações assim,como ressaltar a acessibilidade nesses dias tristes do amor nos tempos do cólera? Conclamar por soluções para a questão no país do zika vírus,dividido em duas correntes políticas?

 A acessibilidade prescinde da solidariedade, carece da empatia para fazer valer alguns dos seus pontos essenciais, necessita de muita compreensão dos leigos,daqueles que desconhecem o nosso problema para nos ajudarem a implementarmos soluções.
  
 Já me senti um alienígena em algumas situações da vida.A adolescência é pródiga em produzir momentos assim.A procura por uma identidade,em querer se sentir aceito por um grupo permeia essa época, e nos leva também a nos deparar com um conjunto de reações inconsequentes,despropositadas.Porque as primeiras provas da vida começaram, o vestibular da existência nos convoca a agir.

 As reações de ódio,intolerância a predominar no contexto do país parecem fruto de uma democracia recém saída da infância difícil,perpassada por um passado traumático e  opressor.
  
 Ser um deficiente físico já me obriga a remar contra a corrente. Escrever sobre a inclusão nesse março de 2016 parece soar inadequado.

 Embora triste com a situação política que impera, fico vazio mesmo por me sentir meio como um pastor de uma mensagem esquisita, estranha a momentos como que o vivemos atualmente.Hoje estão consideradas as falas raivosas,exponenciadas pela maneira acusatória ,excludente de lidar com a opinião do outro.

 Mesmo assim, vale e muito brigar por essa causa.

Um abraço para todos,


 André Nóbrega. 


13 de mar de 2016

O mundo da acessibilidade plena,universal.



 No mundo da acessibilidade plena,universal,poderei andar nas ruas sem receio de queda.Haverá sempre um meio possível,um jeito de me locomover sem que o medo se hospede.
   
 Porque no mundo da acessibilidade plena existirá um profundo entendimento da dor do outro.Pouco a pouco,as terminologias cairão.Não será mais necessário determinar se fulano tem deficiência,se sicrana é autista.Pois,neste mundo ,seremos artistas sólidos na lição de amar o próximo como a nós mesmos.

  As oportunidades de trabalho serão mais justas.Para toda casa onde formos haverá um banheiro adaptado,nas festas para onde formos chamados, a existência da área VEP(Very Especial People)é categórica.

 No entanto,o conceito da área VEP obedecerá a um caráter inclusivo.Jamais ,em lugar algum, a entrada de alguém ficará restrita a critérios econômicos.Finalmente,a ditadura do ter ruirá,e a adesão de todos a um modo de viver menos opressivo será o capital do mundo da acessibilidade plena,universal.

 As mulheres mais lindas descobrirão como é fácil dançar forró com os caras em uma cadeira de rodas.E aos homens interessados em chegar na área VEP,para conhecer algumas gatas,fica o recado:está proibido chamá-las de outra coisa que não seja o nome delas.
  
 Que tal trocar essa mania de chamar os outros de cadeirante e optar por falar Maria,João e etc?A cadeira ,o andador ,a muleta são objetos necessários para a nossa locomoção.Não diz quem somos. 

 No mundo da acessibilidade plena,universal,coitado de quem tiver pena da gente.Não precisaremos ser exemplo para ninguém,pois não seremos mais a exceção a nenhuma regra.Enfim,o ideal de igualdade,fraternidade e liberdade estará enraizado em nosso DNA.
  
 As crianças em idade pré-escolar,quando começarem a ler,estarão aprendendo na prática os ensinamentos passados por Mathama Gandhi,Jesus Cristo e Mather Luther King .

 Com as escolas inclusivas,dará gosto ver como as nossas crianças estarão comprometidas com o projeto de mundo melhor.Serão sementes tão sólidas quanto espontâneas.Os frutos da educação inclusiva vão podar a intolerância secular a gerar galhos,ervas daninhas na nossa sociedade.

 Desfazer o normal há de ser uma norma tão bonita quanto o riso dos bebês .O essencial será mais visível aos olhos de todos. No mundo da acessibilidade plena,a prática do amor,da gratidão ,da gentileza estará tão assimilada,tão fixada que sobrará somente uma vaga lembrança daqueles outros tempos.  .E,é claro,as vagas preferenciais não serão desrespeitadas por motoristas inconsequentes.

  Todos os nossos direitos adquiridos estarão assimilados pela prática social.Em casos de eventuais descumprimentos ,a pessoa a realizar qualquer ação contra a gente será tomada por imensa vergonha.Além das sanções penais,esses cidadãos serão peixes fora da água,remarão contra a corrente linda a mover o mundo inclusivo da acessibilidade plena.

 Bem,ao persistirem ocorrências dessa natureza para os descontentes com a regra desse admirável mundo novo,valerá esse artifício:vamos aplicar um chá de cadeira para tais figuras.Assim elas permanecerão.Pelo menos, até delas nascer a consciência das dádivas,dos infinitos benefícios de aderir a emergente construção desse pleito.Ser ou não ser um operário pelo mundo da acessibilidade não será mais uma questão.

  Ainda falta muita coisa para esse mundo ser criado.No entanto,muitas das grandes transformações da sociedade primeiro surgiram na forma de sonho.Depois,com muita luta,certos enunciados formaram forças catalisadoras,capazes de inspirarem as pessoas a se engajarem por uma causa nobre.

  Podemos aqui,agora, plantar as sementes do mundo de acessibilidade que enxergamos como o ideal.

Um abraço para todos.

 André Nóbrega.



7 de mar de 2016

A mais alta ajuda.



    Existe uma literatura de almanaque. São livros rasos a nos prometerem uma felicidade tão fácil quanto insuficiente. Pois os caminhos propostos em tais manuais são receitas de bolo para melhorarmos, termos uma existência mais rica.

  Porque desconfio de quem condiciona a vida a um pensamento comprado de autoajuda, daqueles que apregoam o pensamento positivo como matéria única de um viver pleno.

   E o que seria um viver pleno para nós?Não tenho a menor ideia. Carrego em meu DNA um ímpeto questionador, não aceito muito bem algumas psicologias de boteco. O valor dos livros sobre como melhorar, progredir e conquistar tudo o que almeja adotando 97 hábitos eficazes não me seduz.

  Tenho um ceticismo profundo dos livros que ensinam como influenciar as pessoas, namorar a Gisele Bündchen sem nem precisar mudar o seu penteado, ou a sintonizar uma realidade zen por meio de uma mentalização havaiana.Sinceramente,prefiro as sandálias havaianas.

  Qual é a necessidade de se discutir se o copo com água pela metade está mais cheio, ou menos vazio?Em tempos de zika vírus, água parada é sinal de outra coisa, meus amigos. Dois raios não caem no mesmo lugar duas vezes, mas eu já caí com a cadeira de rodas três consecutivas na mesma rua.

   É certo que a fé remove montanhas, mas não conserta as pedras portuguesas a atrapalharem a o meu caminho. E se Maomé, que era profeta, não vai até a montanha, eu que não vou dar uma de aventureiro, e escalar o Cristo Redentor, por exemplo.

  Brincadeiras à parte, o fato de rejeitar esse tipo de leitura não significa uma renúncia a outros aconselhamentos. A palavra de amigos, o conselho de pessoas por quem nutro admiração, vale e muito.A poesia do Drummond,do Vinícius e do Pablo Neruda funcionam como mantras,para várias situações .

 Porém, nenhuma leitura substitui o valor da experiência bem sucedida. E cada sucesso nosso abriga um mundo de tentativas, erros ,fracassos e frustrações.

  Ser deficiente físico no Brasil é navegar em um mar de impossibilidades. Contudo, a mesma maré que nos obriga a manter uma conduta vigilante também nos abençoa com a realidade de outras praias, capazes de nos transmitirem sensações paradisíacas .

  Rejeito a validade desses manuais rasos. Acho adocicada a maneira deles de abordarem a resolução dos problemas. Primeiro porque é difícil precisar uma natureza comum das tristezas, achar um denominador X presente a todo tipo de situação a nos afligir. E achar que tudo se resolva por fórmulas é uma situação compatível com a matemática, não com a trajetória humana.

  A fórmula da felicidade não está completa. Ela é percorrida, construída por cada um de nós a cada dia. Nem tudo depende da vontade pura e simples. Para além da motivação, a vontade de sermos pessoas melhores,mais produtivas,existe um diferencial:um mínimo de justiça nas oportunidades que nos são oferecidas.

Sejamos os construtores da mais alta ajuda, e vamos validar cada vez mais os nossos esforços na luta pelos direitos da pessoa com deficiência.

Um abraço para todos!


André Nóbrega. 


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