23 de nov de 2015

A pedagogia da queda



   Existe uma aprendizagem trazida pelos tombos que tomamos. Nessa afirmação não existe nenhuma constatação subjetiva. Falo por experiência própria. Acumulo onze quedas enquanto estive na cadeira de rodas. Contabilizo quedas cinematográficas que não produziram nenhum arranhão, e uma despretensiosa, ocorrida sem fazer barulho. Porém, foi justo nessa queda, justo nesse tombo que precisei me preocupar mais. Por ter imbicado a cadeira, batido a nuca, foi preciso passar no hospital, só para garantir se estava tudo ok.Fiquei bem,e após tanta proximidade com o fato de beijar o chão, sentir a sutileza de tantos nocautes , eu ainda falo: existe uma escola constituída pelas minhas quedas.

   Infelizmente, para quem apresenta uma deficiência física no Brasil e circula por qualquer grande metrópole, há um incômodo quadro que nos é apresentado. A falta de acessibilidade tem um sinistro cartão de visitas. As ruas são mais esburacadas do que a cara de uma múmia com caxumba. Os sinais de trânsito não nos ajudam por estarem adaptados para as pessoas que andam. Portanto, aqueles quatro, cinco segundos a mais nos quais precisamos ter para atravessarmos as ruas não foram levados em conta por quem planejou a engenharia de trânsito.

  Nós somos atingidos com mais contundência pela falta de políticas públicas capazes de prover conforto ao cidadão. O Estado brasileiro é falho em atender as demandas básicas dos seus habitantes. Disso, todos sabem. O que poucas pessoas parecem perceber é que a pessoa com deficiência é mal tratada em alguns direitos mínimos. Porque a quantidade de tombos acumulada nesses meus seis anos como deficiente ocorre por um direito constitucional violado. Aquele a garantir a minha circulação, também conhecido como o direito de ir e vir.

  Bom, ao olhar em retrospecto, constato uma coisa básica. A raiva por ter derrapado da cadeira de rodas inúmeras vezes, o inconformismo de ter caído feito uma jaca com o andador outras tantas, sedimentou a minha vontade de mudar essa situação incômoda. Porque em todo deficiente físico reside a chama de um ativista político em potencial. Não dá para ir às ruas e nos contentarmos com a falta de condições oferecidas para circularmos por onde vivemos.

 Por isso mesmo, podemos transformar esse sentimento de revolta e fixarmos algumas sementes a suscitarem mudanças. O ano de 2016 será referencial para a nossa militância. Além dos Jogos Paraolímpicos, entrará em vigor a Lei Brasileira de Inclusão. Estaremos prontos, atentos para multiplicarmos as nossas vozes e fazermos valer as nossas demandas. E se podemos fazer isso é porque caímos inúmeras vezes antes de chegar aqui. Sigamos mais fortes e sólidos, pois pensar a acessibilidade é um caminho inevitável para qualquer modo futuro de se fazer política. E vamos fazer barulho!

Um abraço para todos!

André Nóbrega.





  

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