1 de mai de 2016

Depois daquele dia

‘’Ninguém pensa no apêndice a não ser quando chega a hora de operá-lo’’

  Henry Miller, página 98 do livro ‘’Sexus’’.

  Gostaria muito de pensar somente na apendicite nesse momento. Porém, foi a partir dessa operação que adquiri a minha lesão neurológica.

  Depois de uma operação de apendicite eu tive uma interação medicamentosa. Houve um choque na química do meu corpo, e por consequência, a minha imunidade baixou muito.

 Então, me tornei uma presa fácil para uma bactéria oportunista atingir o meu córtex cerebral, uma espécie de meio campo do cérebro. O córtex cerebral é responsável pela fala, pelo equilíbrio e pela coordenação motora fina.

  No dia 13 de maio farão sete anos da malfadada operação de apendicite. A cada ano que passo eu presencio emoções variadas nessa data.

 Para quem tem uma lesão adquirida,não congênita, a data na qual o acidente, o tombo, ou a operação que,de súbito,alterou o curso da nossa existência, jamais passará desapercebida.

 Os últimos sete anos foram intensos, galera. Assim é com todo mundo que precisa conviver com a deficiência. A delimitação física surge assim, sem pedir licença e com capacidade de mudar a nossa vida pelo avesso.

 Quando a deficiência surgiu não tive opção. Ou abraçava um movimento de reconstrução, ou ficava pelo caminho. Desde então, boa parte do que serviu para a vida até os 30 anos precisou mudar. E na marra.

 Nem tudo o que foi vivido nesse tempo serviu como enredo para bolero. Os motivos para o riso foram buscados com avidez. Embora inicialmente complicados de serem identificados, os momentos dignos de brinde foram considerados sagrados.

  Nunca a companhia das pessoas que amo foi tão urgente e prazerosa.

  Definitivamente, o que mudou para melhor foi ter descoberto uma causa tão nobre. Desde quando passei a encampar a luta pela inclusão da pessoa com deficiência, os horizontes se ampliaram.

  Porque estamos em busca do mesmo sol. Afinal, após tantas lutas e revindicações sendo repercutidas pela sociedade, a longa noite da falta da acessibilidade vai perdendo espaço.

  O sol nasce para todos. E a luz irradiada por nossa luta contagia muita gente.Somos mais de 45 milhões de pessoas sedentas por mudanças.Formamos uma nação com o mesmo fundamento e credo:a inclusão plena ,irrestrita da pessoa com deficiência.

  O dia 13 de maio é sempre um dia carregado por um tempero amargo. Contudo, sempre restarão 364 dias no ano para consagrar a nossa luta.

  Sigamos fortes, lúcidos em defesa dos nossos direitos.

  Um abraço para todos,


 
André Nóbrega. 

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