15 de mai de 2016

Sobre a eterna chatice de servimos como exemplo



 Nós não temos a obrigação de sermos exemplo para ninguém.Muito menos,devemos sustentar o fardo contínuo de servirmos como inspiração para os outros.Sim,porque a conta nos pesa,bate de uma forma bastante desigual.

 Pois, se para realizarmos as tarefas mínimas,indispensáveis para nos prover cidadania e dignidade é necessário um esforço gigantesco,isso ocorre devido a precariedade dos serviços,das ações do Estado capazes de nos auxiliarem.

 Queria utilizar menos esforço para andar pelas ruas do meu bairro.Queria transitar por aí,pegar ônibus,aproveitar a noite revestido por algumas seguranças.

 Seria lindo me locomover pelas ruas do Rio de Janeiro em paz,sem olhar para os buracos.

  As minhas opções de lazer ficariam enriquecidas caso os gestores culturais tivessem sensibilidade ao tema.
  
  Para obter uma rotina produtiva o meu esforço será maior.Essa força a mais para realizar tarefas simples é uma condição necessária para sobreviver.

 Contudo, o que costuma impressionar as pessoas não é falta de igualdade das oportunidades que sofro,mas sim o esforço fora do comum necessário para executar tarefas que deveriam ser simples.
  
 O foco está errado.Ao invés de enxergarem o problema como um todo,muitos preferem exaltar parte da questão que nos atinge.

 Para nossos amigos, parentes e conhecidos,por uma questão de carinho,genuína admiração,é comovente acompanhar o nosso esforço para participamos da vida.
  
 Porém,o problema é quando essa mesma visão atinge a mídia,o modo como o mundo nos vê.

 Antes de ser um guerreiro,eu sou um cidadão brasileiro.Alguém com direitos e deveres garantidos,mas com outras capacidades que precisam ser reconhecidas,também.

 Nem todo caminho precisa ser cumprido com o fervor,o fôlego de um maratonista.Se muitas vezes o cotidiano nos detona o corpo,faz com que tenhamos a persistência como um pré-requisito obrigatório,é porque não possuímos tantas escolhas para vivermos.

 E,para ser sincero,eu não tenho muita paciência em habitar o status de exemplo,cultivado na mente de tanta gente que admiro.Ao construírem um altar,e fixarem o suor como algo sacro,eles se esquecem,por exemplo, do que é necessário fazer para melhorar as coisas.

 Como confiam demais nessa força de superação, acham que sempre haverá uma mitológica maneira de passar pelas dificuldades. Isso pode ser verdadeiro para o Indiana Jones,o James Bond ou para o super-homem.

 A maior inspiração é a luta pela integração da pessoa com deficiência.

 Para quem insistir em nos colocar num degrau acima,para os que teimam em nos atribuir dons extraordinários e esquecem de considerar aquilo de mais básico do que nos falta,recomendo somente isso:a leitura de autoajuda e a ida ao cinema somente para verem filmes açucarados.

Por favor,a realidade não é assim.

Um abraço para todos,

André Nóbrega. 


3 comentários:

  1. Muito bom, De! Tb torço por uma cidade em que pessoas com deficiência exercendo seus direitos não sejam raras ou exemplo, mas comuns cidadoes como todos demais!

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  2. Luciana V P de Mendonca16 de maio de 2016 11:24

    Adorei o texto e a reflexão!

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  3. Sensacional André! Muito muito muito bom!
    abraços do amigo
    Cadu Fávero

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