7 de mai de 2016

A prisão do quase tombo

  Um tombo pode ser pedagógico.Cair da cadeira de rodas ,do andador, do trono que ocupamos por ficarmos levitados pelo orgulho pode nos educar.A queda,desde que não nos machuque,não traga um dano físico grave ,por  vezes, nos ensina alguma coisa.
  
 Foram 11 quedas com a cadeira de rodas. Algumas se validaram como noções de como deveria me comportar ,sobreviver aos tempos em que vivi como cadeirante.

  Certa vez,enquanto era ajudado por duas pessoas a descer uma escada,a cadeira escapuliu da mão do rapaz que me ajudava e soltou.Embora não tenha sido um choque sem grandes repercussões,a mesma pessoa que deixou a cadeira cair,veio puxar o meu braço com uma força exagerada.O cara quase me quebrou quando tentava me auxiliar...rsrs

   Já quando fui ajudado a atravessar a rua por um conhecido,conduzido para atravessar a rua com a cadeira de rodas tive outra colisão.O choque produzido pelo bico da cadeira e o meio fio da rua me arremessou na calçada.As pessoas vieram ao meu socorro como se tivesse capotado de um caminhão caído de um desfiladeiro.Do tombo da escada ao choque na rua ficou uma lição.
  
 Após a queda,depois de checar se havia me machucado ou não,deveria também informar as pessoas ao redor que eu estava bem.Se possível,contar até alguma piada infame,tal como esta:se eu caísse não teria problema ,pois do chão não passaria.Ou ainda dizer que se a Lei Seca me parasse poderia ser autuado por direção perigosa,e ter a cadeira de rodas apreendida.Essa estratégia se mostrou eficaz para muitos tombos.

 Problema maior verifico nas vezes em que quase caí.Nos momentos onde eu antevi uma queda.Foram situações de puro instinto e reflexo ,nas quais devido a observação prévia da falha mecânica do andador, eu impedi um beijo com a lona.Ou,para ser mais objetivo,nas vezes,nos instantes antes da roda do andador cair,ou de parte dele se espatifar no chão,e, assim,eu me livrar de um tombo.

 Mas,peraí,se livrar de uma queda não é uma coisa boa?Deveria ser.Porque na minha cabeça teimosa acho mais sólida a contundência de um não.

 Cair,depois,na medida das nossas possibilidades,tentar se levantar é uma condição da vida humana.Porém,ficar na eminência do quase tombo é chato demais.

  O quase tombo me afeta psicologicamente.A pedagogia da queda fomentou boa parte dos meus anos pós lesão.Não caio,mas,também,como o andador em tais circunstâncias fica inutilizado,eu não posso dar um passo adiante.Fico refém da sorte,carente da ajuda de terceiros e obrigado a me acostumar por alguns momentos com a imobilidade.

  No último mês vieram duas situações de quase tombo.Sinceramente,não tenho a menor ideia de como lidar com isso.Ficar encostado num muro,a me equilibrar e depois buscar uma solução não é o problema.O pior é a sensação de impotência,fraqueza que isso gera. 

 Afinal,com a qualidade desses equipamentos ,a transitar por uma metrópole de péssima acessibilidade como o Rio de Janeiro, será que haverá oportunidade de existir uma terceira quase queda???

 Já fiquei um tempo só mexendo pescoço,três anos e meio como cadeirante,e uso o andador faz algumas primaveras.Sempre lutei contra o confinamento social.Busco na rua um complemento para validar a minha experiência existencial.

 Ao lado da solidão de ficar em casa,a prisão do medo foram sempre fissuras capazes de me diminuir.O problema do quase tombo é me tornar um refém do acaso,também contribuir para querer diminuir o meu ímpeto pela vida.

Por isso,preferia a queda.Daí, depois,era só prosseguir,mais receoso com certos cuidados.O quase tombo me coloca diante de uma série de gravidades,tragédias que poderiam ter acontecido caso a minha roda tivesse saído em um outro momento.Afinal,como teria sido se eu não tivesse percebido isso antes de arrevessar a rua?

Odeio certas metades,os pedaços de falta silenciosos,capazes de gerarem dúvida e alimentarem o vazio.

O maior sim da minha vida é aquele que vem corroborar a  luta pela inclusão da pessoa com deficiência.

Do resto,quase nada ficará.

Um abraço para todos.


André Nóbrega. 

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