23 de jul de 2016

E por que não falar sobre a cor dos meus olhos?

 Acontece com frequência,a seguir uma regularidade um tanto quanto incômoda.Falo do hábito de amigos e amigas de longa data,que nas redes sociais me marcam somente para fixar posts sobre um tema.São sempre pautas ligadas à acessibilidade.

   É compreensível existir a conexão.Afinal,já não é de hoje que venho exercendo uma militância na área.Pelo menos, naquilo que pode ser chamado da conscientização virtual a favor da causa.Dia após dia,utilizo a internet como fonte para divulgar notícias pertinentes ao tópico,assuntos trazidos à tona com o intuito de prestar informação sobre o universo inclusivo.

  Portanto,é natural ocorrer esse efeito de lembrança,suscitado por um contato virtual meu recente,vindo de algum conhecido com quem tenha pouca intimidade,reduzido convívio social estabelecido.

  Chato mesmo é receber de pessoas com quem tenha estima certa ordem de marcações no meu facebook.São os famosos recados em minha time line,para me mostrar reportagens,artigos sobre a inclusão.

   Através de palavras zelosas,sou marcado mais ou menos assim: ‘’André, já viu a matéria sobre fulano?Também é guerreiro,cara,que nem você’’.Tem também a clássica mensagem:’’Lembrei de você quando li essa matéria,Dé”.

   Fico decepcionado com isso.Pois,para um grupo considerável de afetos, parece que a deficiência passou a ser a única força,o único tema da minha vida.Virei um cantor condenado a repetir uma música só,regido pelo mesmo ritmo,sem grandes variações.

  Tão difícil contar para eles que o andador é um utensílio,muito mais um objeto usado para me locomover.Não é a cruz capaz de luzir uma dificuldade física minha.

  E as lembranças dos outros tempos,de quando não existia a roda de nenhuma cadeira, passaram a não ter importância?

 Ao invés de ser marcado em reportagens sobre deficiências,eu quero ser convidado para festas,churrascos e farras.

 Talvez,surja a necessidade de eu criar outras vivências com essa galera boa.Com certeza,todos querem o melhor para mim.Por algum motivo eles estão asfixiados,presos a uma percepção míope da deficiência.

 O afago é pedagógico,conscientizar pelo abraço,não pela denúncia,a revolta,talvez seja uma virtude recente.

 Vai chegar o dia em que eles vão mencionar sobre a minha adoração à poesia do Vinícius, sobre como adoro contar piadas infames e conseguir ser um legítimo boêmio calibrado por coca-cola.

 Além da militância, que tal lembrar outros aspectos nossos?Vamos variar o discurso, e falar de outras qualidades que temos.

 Por que não falar um pouco sobre a cor dos meus olhos, por exemplo?Só para mudar a letra?

 Um abraço para todos,

 André Nóbrega.
  


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