30 de mar de 2015

Aquela (vaga) certeza de que não evoluímos muito





    Quem faz uso contínuo da cadeira de rodas, do andador, precisar passar por vários obstáculos. Uma destas barreiras nos é apresentada de forma física, fixada em nosso cotidiano de maneira bem contundente. Esse inimigo nosso é materializado pela sofrível acessibilidade das cidades. São inúmeros os entraves, os impedimentos com os quais precisamos conviver para exercermos o simples, sagrado e fundamental direito de ir e vir.  Portanto, o asfaltamento precário das ruas, a má qualidade dos transportes são problemas consideráveis, mas se constituem apenas como parte de um todo.

   Porque quando precisamos nos locomover pelas ruas, existe um outro problema. Mesmo sem ter a nitidez de um buraco no meio da rua, ele também pode ser facilmente identificado.  Falo aqui da insistência das pessoas ditas normais, sem apresentar nenhum tipo de deficiência, mas que não pensam duas vezes quando precisam burlar os nossos direitos adquiridos. Esses exemplos vivos de cidadania adoram falar mal da corrupção a atingir o governo, Talvez, esses brasileiros indignados não suportem viver em um país assim, como o nosso . Uma terra , onde segundo dizem , todo mundo quer levar vantagem em cima do outro. No entanto, estes exemplos da conduta não hesitam quando precisam estacionar os seus carros nas nossas vagas especiais . Em qualquer shopping, isso pode ser verificado. Nas ruas, o mesmo fenômeno é presenciado.

   Essa prática nada solidária é completada por uma postura cínica. Em casos assim , quando você vai interpelar a pessoa, falar sobre a ação recém cometida, as respostas costumam desanimar. Poucas admitem o erro. Muitas delas, inclusive, já têm uma desculpa pronta para ser dita. As alegações delas, além de serem fracas, vem acompanhadas por posturas secas. Geralmente, um aceno, um rápido gesto incapaz de formular até mesmo um falso entendimento da situação. Nessas horas, não passa pela cabeça desse bendito ser nenhum apelo por civilidade. Nada aponta para ação de alguém consciente, preocupado com o erro que acaba de ser feito..

  Por se tratar de uma situação comum, a se repetir de forma constante comigo, tentei analisar isso sobre um outro ângulo. Então, me coloquei no lugar de um motorista nervoso, pouco preocupado em seguir normas de trânsito. Uma pessoa acostumada a burlar leis. Aí, para esse cara, ocupar uma vaga reservada a uma pessoa com deficiência é algo normal, uma coisa sem muita importância.


  Imagino agora alguém crítico, uma pessoa com consciência política e sempre presente nas manifestações anticorrupção. Vejo essa pessoa a procurar vaga em um estacionamento de um shopping, naqueles dias movimentados. Quando uma vaga especial está livre, o que pesará mais, a consciência social dele, acumulada através de corajosas postagens no facebook ou a necessidade de não chegar atrasado ao cinema?

  Levantar uma bandeira inclusiva em uma sociedade individualista é complicado. Meio como remar contra a maré. As nossas limitações físicas já tornam a travessia difícil. Como se não bastasse isso, termos de lidar com as deficiências, crenças erradas dos outros é muito chato. Quem nos enxerga como coitados, irá nos tratar com migalhas. Quando penso em quem estaciona na vaga reservada , sou tomado por uma percepção. É uma vaga noção de que não evoluímos muito como sociedade.

 Mas, não nos resta outra opção Mesmo diante dos mares turbulentos, sujeitos à tempestade, piorada pela ignorância alheia, nós precisamos persistir. Enxergar quais são nossos aliados, cada vez mais procurarmos uma forma de elevarmos a nossa luta .

  Como poderemos, cada um de nós, darmos a acessibilidade um caráter afirmativo de ação política? Como fazer disso uma pauta fundamental para o nosso governo? Quando seremos tratados com programas capazes de atender às nossas demandas e não com políticas de improviso? Ainda falta atravessar um continente até conseguirmos efetivar tudo isso. Mesmo assim, nós, com fôlego e ímpeto, chegaremos lá.

Um abraço para todos,


André Nóbrega.

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