13 abril 2015

Todo cadeirante carrega uma enciclopédia dentro de si






   Quem pilota uma cadeira de rodas sabe como é. São muitas as estratégias, as maneiras como precisamos tornar a existência mais possível. Quando o viver é dificultado de forma constante, a resposta para tais situações acontece automaticamente. Porém, não vivemos somente para reagir frente a ameaça provocada por algum obstáculo .
   
   Existe um universo de histórias engraçadas, emocionantes contido na pessoa que conduz uma cadeira de rodas. Para começar , vale lembrar ao leitor andante uma coisa . Temos nome, signo, time de futebol como qualquer outra pessoa. Se fica difícil para você enxergar isso, nos perceber para além do objeto, do meio criado para facilitar a nossa locomoção, eu lamento muito  .
  
  Por favor, falem para as pessoas fugirem um pouco dos estereotípicos clássicos, a nos classificarem como coitados, ou exemplos de superação. Peçam aos outros por um pouco de originalidade, já que a tendência de julgar parece ser um sintoma na rotina de muitos. Pelo menos, vamos colaborar para que evitem cometer alguns lugares comuns .

  Assim sendo, quando alguém perguntar como ficamos assim, o que aconteceu para estarmos em uma cadeira de rodas, vamos contra atacar. Responda diferente à pessoa nova em sua vida, que teima em repetir essas velhas perguntas. De bate pronto, sem hesitação, fale que se trata de uma longa história, e não vale à pena comentar isso agora. 

  Depois, caso você esteja munido com outras intenções, indague você à interessada ouvinte se existe alguma boate maneira ali por perto. Levante o tópico da acessibilidade, ressalte algumas questões relevantes ao assunto. Para começar, que tal mencionar o conceito da balada inclusiva? Será que ela sabe o quanto a cadeira de rodas facilita na hora de dançar forró?
  
  A inclusão não depende só dos esforços feitos pelo governo. É um compromisso de todos, que pode ser efetivado com menos força e cara feia. Existe vida além dos buracos das ruas, conseguimos rir apesar de tantos desafios. Todo o cadeirante carrega dentro de si uma enciclopédia. São muitas vivências acumuladas, temos momentos intensos de drama e comédia, romance e suspense. Às vezes, tudo isso ocorre em um dia só, de uma maneira mais forte do que na rotina de outra pessoa .
    
  Por atravessarmos tantas coisas, nos defrontarmos com situações tão variadas quanto ricas, vamos consolidando um acervo íntimo diferenciado. Temos muitas histórias e lições para compartilharmos. Sem a obrigação de sermos exemplo para ninguém, apenas a constatação do quanto o caminho difícil nos condiciona a mantermos uma existência rica.

  Um abraço para todos,


  André Nóbrega.

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