21 de dez de 2015

Como endurecer sem perder a ternura?

  
Sabe a poesia oferecida por breves momentos do cotidiano?É aquele presente dado pela vida,quando você menos espera.Em meio àquele dia agitado,com mil coisas a realizar, a cabeça operando por um ritmo frenético , e você vai atravessar a rua. Ao olhar para o outro lado, percebe então uma criança pequena rindo para a mãe.

 De súbito, aquele cenário amoroso o inspira,faz com que o frenesi, o barulho das ruas diminuam o impacto sobre você.Vendo o amor materno sendo passado, poder sentir a singela risada de uma criança toda repleta de carinho o faz atravessar as ruas melhor. Efeito similar ocorre com a aparição e o magnético canto de alguns passarinhos. Isso me convoca a brindar à natureza, assim como quando passo na praia e vejo o voo de alguns pássaros.A impressão que tenho é que esses seres alados me presenteiam com um ballet celestial.

 Talvez,uma das maiores brutalidades da deficiência física é obrigá-lo a se manter em um estado de vigilância constante.Para quem usa cadeira de rodas,muletas ou andador, andar nas ruas é algo complicado.A falta de acessibilidade nos obriga a andarmos tensos. Com tantas ruas esburacadas,calçadas incapazes de nos promoverem segurança, qualquer descuido pode redundar em um tombo.E cair, ninguém gosta,né?

  A preocupação em me manter ileso afasta a capacidade de absorver a poesia da vida. Chego ileso das minhas idas à rua, mas por vezes,bate uma aflição.Porque estou condicionado a uma equação desumana.Olhar para os buracos das ruas é um fator mais importante do que notar a aproximação das pessoas.Tem que haver um meio termo.
  
  A deficiência nos obriga a nos fortalecemos. Porém, nem por isso devemos ceder ao apelo da brutalização permanente, presente nas privações com as quais temos que conviver.Por mais desiguais que sejam as condições de trabalho, de mobilidade e opções de lazer,não ceder à ira,não fazer da revolta uma moeda de troca é um desafio.

  Não fiquei míope ao encantamento, nem mudo para não poder relatar a beleza das coisas que presencio.Mudou a forma de perceber a magia dos singelos momentos do dia a dia. Era uma antes da lesão,passou a ser outra agora.Nem por isso,o destino deixou de me fornecer matéria-prima para fazer poesia.

 Ainda que a rotina de todos nós seja prejudicada pela falta de acessibilidade,pela quantidade de ‘’nãos’’ que juntamos para formatar um ensaio de ‘’sim’’, que o caminho não nos deixe insensíveis às belezas da vida.

 Temos uma vida de luta pela frente,um verão para curtirmos,e um 2016 com Paraolimpíadas e a Lei Brasileira de Inclusão para percorrermos.Vamos firmes,com disposição e abertura para aproveitarmos os cantos de musas,os apelos de festa que nos esperam.

  Um bom Natal para todos!


  André Nóbrega. 



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