18 de jan de 2016

Sexta-feira no Circo Voador.

  
 Quando tive a minha lesão fiquei confinado a duas prisões. A primeira era definida pela abrupta limitação imposta ao meu corpo. O mundo exterior já não poderia mais ser descoberto,percebido como antes.Foram muitos meses nos quais a movimentação ficou bem restrita. De repente, não conseguia mexer quase nada do pescoço para baixo.Como resultado disso,eu fiquei sujeito a um segundo confinamento.Fiquei preso ao meu próprio corpo,diante de muitas lembranças de como a vida havia sido até então.
  
  Nos primeiros momentos após a lesão tudo foi muito difícil. Eu tive que desenhar em meu imaginário outro modelo de existência, até para conseguir suportar a nova realidade que me foi imposta. Um dos recursos usados era o de fechar os olhos, lembrar somente daqueles instantes de intensa felicidade.Foi feita uma edição, habitada somente pelos meus melhores momentos percorridos.
  
  Outra coisa fundamental foi a visita dos amigos, amigas e o apoio incondicional da família. Mesmo assim, o cotidiano me reservava privações,no mínimo,incômodas. Tomar banho,ir ao banheiro eram tarefas que eu não poderia fazer sozinho,por exemplo.
  
  Era comum eu ser aturdido pelo mesmo sonho, que quando eu acordava se materializava como um autêntico pesadelo. Por muitas noites,eu via o meu corpo correndo,levantando, a fazer tudo o que fazia até um tempo recente, antes da minha lesão. O pesadelo era ter que acordar e ficar paralisado diante da minha realidade.
  
  Passados quase sete anos foram muitos os ganhos físicos acumulados. Mesmo assim, ainda carrego comigo certas limitações.Essas barreiras,porém,mais têm a ver com uma perspectiva limitadora do que com a competência atlética de fazer ou não certas atividades.
  
  Por termos dificuldades para trafegarmos pela rua, usarmos o transporte público com segurança, conforto, nós acabamos por escolher as regiões mais seguras para andarmos. O que é uma decisão pertinente, tendo em vista que a falta de acessibilidade de certos locais nos coloca em perigo. Mas ir sempre aos mesmos lugares também não enche o saco?Não temos o direito de arriscarmos e conhecermos novas opções de lazer?
  
  Na última sexta-feira eu fui presenteado. Consegui voltar ao Circo Voador, assistir a um show da melhor qualidade, na companhia de amigos referenciais em minha vida. Para o Rio de Janeiro, o Circo Voador é um local sagrado. E isso ocorre não somente pelas atrações que ali se apresentam, mas pelo clima obrigatório de alegria, bem estar com os quais a plateia fica imediatamente elevada.
  
  Fazia uns nove anos que eu não ia ao Circo. Não considerava mais esse recanto da diversão em minha rota particular. Julgava que seria difícil de chegar, muito complicado permanecer no lugar, e improvável conseguir me divertir lá como fazia antes.
   
  Estava enganado. Nada obstruiu o meu prazer. A chuva não atrapalhou, a galera que se reunia nos lugares cobertos mais me acolhia do que atrapalhava. O uso do banheiro adaptado era garantido, salvaguardado pelos funcionários do Circo. Nenhum esbarrão foi capaz de diminuir o meu entusiasmo. O sorriso estampado configurava o fim de uma era.
  
  Algumas crenças têm o poder de nos engessar, conseguem tolher as nossas capacidades e obscurecer as nossas potencialidades mais incríveis. E tão sagrado quanto o direito de ir e vir é o dever de brindarmos à vida.

   É fato que temos uma penca de limitações, que os cuidados a serem tomados precisam ser redobrados. No entanto, a precaução jamais pode tolher o nosso desejo por diversão nova. Quando o tédio bater as nossas rodas, precisamos ser tão cuidadosos quanto aventureiros.
  
 Porque o poder das surpresas pode ser reparador. Na última sexta-feira, eu pude reencontrar uma antiga vizinha que é sinônimo de celebração.Ela,além de ter uma alma de trio elétrico,é alguém capaz de sempre elevar os ambientes,contagiar os amigos com a sua presença.

  Quando penso na última sexta-feira no Circo Voador fica uma certeza. As portas da prisão já estavam abertas fazia um bom tempo. A verdade é que eu me contentava em ir ao pátio, e depois tomar algum banho de sol diário. A liberdade das ruas,embora algo possível,não foi ainda alcançada de forma plena.
  
 Nós temos muitas prisões para escaparmos. E cumprimos muitas penas movidas por suposições. A limitação física não define quem a gente é,talvez,indique a necessidade de cuidado para percorrermos certos caminhos.E ser precavido não nos impede de usufruir a riqueza da existência, só nos obriga a sermos criativos e a andarmos com pessoas especiais, que além de gostarem da  gente,tenham essa intimidade com a vida.
  
  Não posso acabar o texto sem agradecer ao Cafi, a Deborah Colker e a Bá Rosalinski pela luz , por me ajudarem a sair de uma prisão que eu não pretendo voltar nunca,mas nunca mais mesmo.
  
  Um abraço para todos,
  
  André Nóbrega.
  

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