07 abril 2019

O plano da ANCINE




         Felizes as memórias construídas, a partir do efeito, da emoção própria, única, vinda das salas de cinema.
         Poder elencar em seu glossário existencial , junto com uma lista de filmes inesquecíveis, um anexo de experiências determinantes.
Já sem o protagonismo de outrora, de arte, patrimônio fundamental do século XX , a sétima arte resiste, nos encanta. É uma fidelidade, em meio ao deserto da vida, ser contagiado por uma história, num oásis oferecido por aquela tela gigante.
Quem pode negar o efeito, o impacto proporcionado pela exibição dos grandes filmes em nosso caminhar, como admirador incontido, inveterado, sensível a essa manifestação artística?
Os cegos, as pessoas com baixa visão, os surdos. Não bastasse a exclusão, no sentido prático, cotidiano, ao qual uma pessoa com deficiência se defronta, há este agravante, de grave incisão na vida, na realidade de quem possui tais características.
Por que a falta de acesso às salas de cinema, museus é uma negação ao sonho. Ao poder essencial de germinamos saberes, diante das experiências acumuladas. Depois de apreciarmos grandes obras, obtemos um escape lúdico, enquanto nos mantemos acesos, vivos, em nossa trajetória.
O acesso universal às salas de cinemas , portanto, possui uma conotação comum, presente ao de um Direito Fundamental, na Constituição Federal de 1988.
 Não por acaso, está elencado, com amplo e merecido destaque na Lei Brasileira de Inclusão. A nossa maior conquista jurídica, em seu Título II-Capítulo IX- fala sobre o’’ direito da pessoa com deficiência à cultura, ao esporte, ao turismo, ao lazer, em igualdade de oportunidades com as demais’’.
Soa quase como ficção, escrita criada a partir de situações estabelecidas em mundo paralelo, fora do Brasil padrão, a parte do país conhecida, preocupada em não nos dar protagonismo. Nem a justa viabilidade.
A ANCINE(Agência Nacional de Cinema) divulgou um cronograma, com o intuito de estabelecer acessibilidade, em mais de 3.200 salas de cinema no país.
Aos poucos, pretende-se adaptar os equipamentos culturais das salas de exibição, para enfim ocorrer o ingresso, a assimilação dos conteúdos audiovisuais.
Será edificante presenciar o êxtase, o gozo refletido no corpo de quem sequer é considerado, levado em conta, pela exibição, o circuito de filmes comerciais. E em sessões permanentes .
Pelo plano de difusão ambicionado pela ANCINE, a partir de 1º de janeiro de 2020, 100% dos filmes deverão ser exibidos com opção de acessibilidade em Libras, audiodescrição, ou legendas descritivas.
Muita torcida, uma enormidade de cautela, pelo cumprimento, a assunção definitiva de um pleito tão ambicioso .
Com as palmas, o peito pronto para ser arrebatado, caso a ideia ganhe corpo, espaço e significados.
Vamos torcer.
Um abraço para todos,
André Nóbrega.




31 março 2019

Encarar o ‘’não’’ como vírgula. Aceitar o ‘’sim’’, com dúvidas


Por que a hora do sim é um descuido do não. Se Vinícius de Moraes afirmou isso, não cabe muita oposição. Palavra de poeta costuma valer mais, ajuda a ressignificar o rumo, o peso das experiências. Com inegável volume, carga de contundência e suavidade .
A experiência existente, pelos poucos amores vividos , obtida com algumas criações esparsas feitas, é bastante tímida, para ocupar alguma expectativa inútil, por comparação. Bom, se hoje tenho em Vinícius como um ídolo, na adolescência o considerava um Deus.
Cabia cada palavra de amor, letra de canção feita, para ajudar com meus primeiros passos, conquistas, digamos, dos dezesseis anos até os trinta. Da estrada , pavimentada por erros, tentativas e trajetória.
Dos 30 em diante a trilha sonora mudou, por completo. A Bossa Nova perdeu um adepto, ganhou, no máximo, um fã distanciado. Ao invés de saudar o mar, o barquinho a navegar, ao fim da tarde, junto com a garota a caminho no mar, vinham um sem fim de questões, bem mais urgentes.
Não mais olhar para os lados. Perder, por muitos anos enquanto me movimentava, na rua, o contato visual com as pessoas. Fundamental me ater, como pré-requisito para evitar quedas, aos buracos da rua.
Para quem possui uma deficiência, saber desviar dos erros é um hábito. Negar o cultivo da resiliência nunca é uma opção. O que não nos eleva, nos coloca a mágica condição dos exemplos.
Aprendemos com as experiências, apenas. A quantidade de negativas faz germinar na carne, junto com a alma, um senso de observação pragmático.
Com menos versos, poesia, uma atitude conjugada, um tanto acostumada ao fenômeno da impermanência. A dor a lhe afligir hoje, depois, vai se atenuar.
Tem sempre na esquina, no futuro, uma possibilidade  de riso, de gozo, pronta, à espreita, doida para nos acolher.
Com o tempo, adquirimos o reflexo necessário para evitarmos acidentes, junto com aquela malícia indispensável, vinda para tirarmos dos instantes alguma escada.
Algum levante possível, pronto para nos elevar.
Tudo muda, sempre.
Uma vantagem inequívoca em fazer 40 anos consiste justamente nisto. Desdramatizar o contexto dos erros, não fazer alarde, festa, desfile com trio elétrico, ao menor contato, com as vitórias surgidas.
Contudo, o leitor de Vinícius a habitar em mim sabe que a tristeza é apenas um intervalo, entre duas felicidades. E também, que há sempre uma mulher à sua espera, com os olhos cheios de carinho...
Apesar do convívio com alguns invernos, o alcance, vislumbre com a primavera aquiesce. Não para uma perspectiva ingênua, órfã , pelo contato insistente com constantes desatinos, abandonos.
Jamais perder a noção da realidade, do infinito hall de mudanças a serem operadas, para a causa.
No entanto, aprender a identificar, na curva e anseio dos asfaltos, a irresistível beleza de certas flores, que teimam, insistem em aparecer. Para mim, para você, a quem treinar o olhar.
Um abraço para todos!
André Nóbrega.   



23 março 2019

Olhar a vida, mesmo em meio a buracos

 Muitas quedas habitam o pós-trauma, a quem, por alguma razão, circunstância, teve o curso da existência alterado. Colidido, graças ao surgimento de uma deficiência física.
 Os instantes ganham um peso excessivo. Infinitas as atitudes tramadas, para a reconfiguração posterior do cotidiano. Primeiro, a depender da gravidade do fato, precisa reconhecer o peso da morte, o gosto de mofo.
Você não é mais a mesma pessoa. Ficam dissolvidos os movimentos, presos numa memória de corpo recente. O tempo como péssima companhia, indigesto conselheiro. A comparação com o passado é indevida. O presente não opera, você nada produz, o seu futuro apenas pressente e aguarda pelo caos.
Dando o devido crédito, importância ao luto, a dor de cada um, ocorre uma resolução arriscada. O olhar esfacelado, desconfia dos espelhos, sobretudo. Nadam conta a corrente vários sonhos seus. Ficam erguidas, distantes, na crista da onda, os acenos comuns, de acúmulo risonho, afetivo.
 Mesmo assim, é preciso ir para a rua, buscar no outro algum indício, uma possibilidade de reconstrução. É um momento camicaze. Com cadeira de rodas o jogo muda, por completo. O asfalto como terreno hostil, o perigo presente, tão próximo dos gestos comuns. Atravessar o sinal, com atenção máxima, cuidado para empregar a força correta. Nunca virar a cadeira.
Desviar das calçadas defeituosas, para depois, quem sabe, ser percebido. Considerado, não pelo objeto que o locomove. Valorize, celebre os lugares onde você será reconhecido, festejado pelo nome.
Foi uma sorte imensa, uma cagada cármica, conseguir encontrar um lugar assim, um ano depois da minha lesão: a Síndrome de Miller Fisher.
É um boteco ao lado da minha casa, à época. Um daqueles famosos perto, a se manterem longe. O místico, transcendental oásis proporcional ao tamanho, a dimensão do deserto, da aridez surgida . Embora morador do Jardim Botânico há 20 anos, pouco conhecia o bar Rebouças.
Foi no espaço democrático, de aceitação ampla de um boteco onde eu consegui reconhecer, identificar fragmentos de uma essência esmigalhada, perdida.
E com gargalhadas, camaradagem, coca-cola sendo servida, aos montes, pelo Jorginho, o melhor garçom do Rio.
E muitos amigos, amigas vindo. Pra ficar, de vez. Criar uma corrente amorosa. Dando gás, tônus para os ganhos físicos adquiridos, e tendo a audácia, o despudor de me alimentar com uma certeza : posso olhar a vida, mesmo em meio a buracos.
Vou fazer quarenta anos, no dia 05 de abril. Logo depois, serão dez  anos ,desde o aparecimento da maldita Síndrome, em maio. Por inúmeras vezes, de forma sofrida, vem um tortuoso cenário. Mania de pensar em como tudo estaria, sem o aparecimento da minha deficiência.
Só não consigo pensar em nenhuma perspectiva, definição de felicidade razoável, sem frequentar esse bar.
O playground raiz, favorito de 9 em cada dez moradores, moradoras da área. A missa favorita, palco de jogos sagrados, piadas tolas, muito amor à disposição. Sempre.
Que perdoem a inconfidência, mas escrever essa coluna me deu uma sede....
Goles de solidariedade,  porres de divertimento, com arroubos de inclusão, me aguardam na Maria Angélica, número 197.
Nos encontramos lá?
Um abraço para todos,
André Nóbrega.



16 março 2019

A primeira turma de pós-graduação, em acessibilidade, da PUC RJ

  
         A secura de ações, empreendimentos planejados em favor da inclusão, por vezes, anexa um gosto amargo à luta. Obstrui o horizonte de quem trabalha pela causa, depende de eventuais benefícios anunciados, e aterra as perspectivas futuras, com um expressão cansada.
 Um ânimo fustigado por tantas promessas de melhora, poucas mudanças sendo operadas, em nossa vida. O peito abriga sonhos, mesmo ainda embrulhado pelo contato cru, opaco de tantas condições desfavoráveis.
A questão da acessibilidade não captura do Estado, do governo, a justa condição de protagonismo. E não nos enganemos. Essa relevância, como efeito, eco de impulso cidadão, determina, conjuga os ganhos, as conquistas por nós almejadas.
Por não esperar muito da administração pública, num sentido coeso, paramentado, sou uma metade de copo cheia, ocupada por água efervescente.
As grandes ações provém de pessoas, de associações, ONG´s cuja valentia, o fulgor nos municiam, de um jeito diferente. De certa forma, o dissabor, a desilusão provocada por uma experiência de exclusão, adquire tempero diferenciado.
Quando somos conclamados a participar, lutar em busca de protagonismo, junto com pessoas qualificadas, muda tudo.  Aquela voz, o impulso primevo militante, o motivo original, cheio de raiva, essencial para nos engajarmos, ganha reverberação. Naturalmente, se multiplica.
A PUC RJ, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, começará agora, em março, a primeira pós em acessibilidade da sua história. É um ganho estupendo, para todos nós.
Quando somos abraçados assim, por uma instituição de ensino superior, são abertos influentes canais de comunicação. Sinuosos artifícios para o debate ficam oferecidos. Fica colocada uma ponte visível, na sociedade e de comum acesso, para a resolução de problemas. Todos ganhamos, um arsenal de ideias, estratégias começa a ser tramado, a envolver quem está(direta e indiretamente) ligado com a questão.
Estudantes de psicologia, militantes, pais de pessoas com deficiência, e toda a competência, o legado institucional de uma universidade reconhecida, tradicional.
Sobrevoará, portanto, por entre os pilotis da Gávea um ar dissonante. Ares de inovação, revestidos pela força inconfundível de uma revolução sendo germinada.
Não existe mudança maior do que a propiciada pelo saber, a troca de conhecimentos, experiências.
Portanto, a primeira turma de pós-graduação em acessibilidade, inclusão, é um claro, flagrante caso de empoderamento, meus amigos.
Aos alunos, professores, toda a primeira ordem de marujos, desbravadores a rumarem por esse mar, esse imenso continente inclusivo, ainda pouco explorado.
Restam vagas para a primeira turma.
Para maiores informações, favor acessar o link:
Ou, entrar em contato, pelo cel:
(21) 97658-6094
Um abraço para todos,
André Nóbrega.



10 março 2019

A hora e a vez de solidificarmos as mudanças



         Você deve ter ouvido, lido em algum livro de autoajuda, sobre o tal ideograma chinês, cuja junção, representa, significa ao mesmo tempo, crise e oportunidade.
         É balela, lenda urbana, propagada em discursos de políticos relevantes, da alcunha de um John Kennedy, e, portanto, incorporado, sem maiores questionamentos, ao nosso cotidiano léxico. Basta uma busca no Google para entender a tal pegadinha.
         Contudo, isso em nada tira, esmorece a verdade contida na ideia. A sabedoria repousada, no seio do conceito, é válida. Ocorre, justamente, nos momentos de maior desespero, aflição cívica, as reações mais extraordinárias, incríveis, ocorridas em reação a momentos de flagelo político, insuficiência social.
         Passamos por um momento de extremo perigo, supressão a vários direitos adquiridos. O exemplo a contabilizar essa afirmação consiste, se afirma, no texto da Reforma da Previdência.
         Quais são os trechos a exigirem maior atenção para nossa causa, dentro daquela que é considerada ‘’a mãe de todas as reformas’’? Em duas situações: uma, na parte auferida ao BPC(Benefício de Prestação Continuada). A outra, condiz com os critérios, os itens para a contabilização do tempo de aposentadoria.
         No tocante ao BPC, predomina, de acordo com a regra imposta pela nova reforma, um outro critério: o do status econômico do próprio pcd. A regra atual transfere o recurso(25% do salário mínimo, equivalente a 249,5 reais por mês) para qualquer pessoa com deficiência, que não consiga trabalhar, não possua uma fonte de renda.
Pela taxação reformadora, o benefício seria transferido somente a quem  tem renda média, computada em família, inferior a 98 mil. Para quem já recebe o rendimento, de acordo com o critério atual(a desconsiderar a enunciação por renda), não serão alterados os benefícios.
As falências do modelo acima proposto: não é incomum encontrar uma família com condições desfavoráveis, baixa qualidade de vida, mesmo tendo ultrapassado o teto computado.
Em uma família numerosa, de classe média baixa, onde os residentes tenham como dependência, força de esteio financeiro apenas a mãe. Os lares regidos, tocados, pelas mães solteiras. Um pedido de prestação continuada, de antemão, será excluído. Uma catalogação impessoal, desumana predominará, devido a imposição pelo valor determinado.
Ter uma deficiência, em muitos casos, é ter uma gasto consagrado, um incômodo cálculo mensal computado. São contas com fisioterapia, com remédios. O impacto causado, devido ao aparecimento súbito de uma lesão, nossa...É exorbitante. Exames, consultas médicas frequentes, o ônus pago, pelo acesso, a opção feita a medicina particular.
Pagamos sempre pela ineficiência do Estado, em suas atribuições elementares.
Outro ponto importante, crucial da proposta diz respeito a aposentadoria por invalidez. O texto da reforma garante os vencimentos integrais, em 100% do salário, somente aos acidentes de trabalho. Ao que o Direito computa, elege como doença profissional, aquelas deficiências contraídas durante o exercício, a prática do seu ofício .
Após a revogação da lei, caso você seja atropelado, virado cadeirante, impactado, devido ao aparecimento de uma lesão neurológica rara, grave, como funcionará?
Somente terá direito a 60 %, do total da aposentadoria. Caso o tempo de contribuição exceda vinte anos, ele terá direito a mais 2%, a cada ano. Portanto, somente com 40 anos de contribuição, terá alcançado o direito a integralidade do próprio salário.
Um panorama delicado, controverso, de clara perda dos direitos adquiridos pela causa.
Diante da iminência de crise, conseguiremos ter força, sabedoria, para crescermos?
Com certeza ! !
A internet é o quinto poder, no país. É o meio pelo qual eleições presidenciais podem ser decididas, pela propagação de fake news. Também poder ser a plataforma essencial, na divulgação premente, indispensável por cidadania.
Enchamos os e-mails dos Deputados Federais votantes, vamos cobri-los com informações, estudos, agora. Enquanto a Reforma ainda não passou.
Vamos, por que ainda dá tempo.
Um abraço para todos!!  
André Nóbrega.





03 março 2019

O oceano inclusivo formado pelas mães de pcd´s


            É sabido, de comum e plural registro o ditado a dizer, de forma categórica e simples: ‘’Existem algumas causas que você escolhe. Outras, que a vida escolhe por você’’.
            Tendo a discordar da sentença um pouco. Ninguém tem como meta, objetivo de vida inicial, primário, o de ser militante da inclusão. Por razões claras, um tanto quanto óbvias. Ninguém anseia, deseja, se tornar uma pessoa com deficiência.
            Mesmo aos já nascidos com alguma lesão, o fato de portar ou não a bandeira, sedimentar-se, como instrumento da causa, atende a uma série de variantes expressivas.  
Tem a ver com vontade, condições de engajamento, oferecidas pelo meio onde o indivíduo habita. Além do lastro educacional, capaz de oferecer-lhe a devida condição crítica, histórica, para a contribuição expressiva nos esforços pela inclusão.
Outro fator bastante relevante: muitas vezes as implicações, cuidados com os quais alguém precisa enfrentar, de antemão impedem, paralisam a adesão espontânea, natural para a causa.        
Portanto, ao contrário do raciocínio apregoado pela premissa colocada acima( causas que a vida escolhe por você), não  obedece a uma lógica tão primária, consequente. Nem se traduz por uma ideia de acaso, um aspecto de mera, insuspeita fatalidade. Luta pela inclusão não só quem padece, sofre os efeitos de andar sempre suprimido, enjaulado por questões desfavoráveis, nos quesitos mais básicos.
 Temos como aliados uma corrente invencível, valiosa ao extremo. Ouso dizer: para tal classe, sorte de lutadoras, pesa muita mais o apoio, o incentivo dado, do que a maioria das ações feitas, empreendidas, pelo  Estado, o governo, quando defrontados pela questão.
Podem não ser muitas, é verdade, mas são sólidas, boas o suficiente para germinarem no infecundo solo do preconceito, sementes de perseverante e incalculável alcance.
Mas o que o faz o jeito, o ritmo da luta das mães dos pcd´s ser tão especial?
É uma forma de abraçar as dificuldades, enxergar os problemas comuns a causa, sem perderem de vista uma solução compatível com o afeto. E isso ocorre pelo amor , o sentimento fixado pelo filho, e de forma generosa, compartilhada para a totalidade da luta.
Não se trata de eventualidade, pode chamar de reflexo, espelho na forma de um amor comum, bem mais característica ao universo da mulher.   
Quando vejo um motorista ‘’normal’’, no auge da plenitude física e arrogância cívica parar numa vaga reservada, não penso duas vezes. Vou falar com ele. O diferencial nestes casos é o tom, a maneira, como irei fazer tal abordagem. Ser firme, sem resquício maior de raiva.
 Ainda me encontro longe de atingir esse estado. Muito das mães militantes, protagonistas na inclusão, acessibilidade da pessoa com deficiência me mostram ser possível, provável chegar a esse nível. De alcançar esse grau de evolução.
Lute como uma garota. Aja, se possível, com a firmeza, a obstinação delicada e persuasiva dessas mães.
Dedico a coluna a Berenice Barcelos da Nóbrega, para todas aquelas mães que me ensinam a ser alguém melhor. Mais afiado para reivindicar , bem mais pleno, integrado e participativo, para todo o viver.
Um abraço para todos!
           André Nóbrega  



23 fevereiro 2019

Acessibilidade atitudinal


         
            O éden da inclusão ascende na intenção expansiva, germina através dos sonhos, nas ações de todos os militantes, divulgadores da causa. Mais ou menos, em que consistiria isso? Como configurar com a realidade terrestre um plano de integração possível, mais rápido e adequado para as nossas demandas?
Este caldeirão opaco, vazio pela falta de uma política pública nacional consistente, poderia dar um caldo bem melhor. Não salgar tanto pela omissão, nem apimentar o cotidiano com promessas. Apenas pelo acréscimo de um certo tempero, teríamos o ganho essencial para a nossa vida.
Não menciono aqui o aspecto determinante, justaposto devido a conformidade dos dispositivos legais. Nem de adaptações nos transportes, ou dos incentivos realizados com outro intuito: o de nos incluir profissionalmente.
É uma questão simples para uns, oculta, indisponível, para a natureza de outros. Falo da empatia, gente. Desse totem, dessa joia forte, densa o suficiente para nos disponibilizar ferramentas transformadoras.
Certa ordem de tesouros exige dos potenciais desbravadores prática, além do  talento bruto e nato. Qual a sua muleta usada, para quando olha para um mendigo na rua? No lugar onde deveria habitar uma pessoa, você vê uma paisagem? O inferno são os outros mesmo, conforme Sartre prenunciou?  
Sinto mais afeto do que estranheza, quando saio pelas ruas. A solidariedade assume os rostos, os contornos mais inusitados e diferentes. Fica como essência, como princípio, uma constatação transformadora: minha vida melhorou, por que além de me desviar dos buracos, busco o olhar das pessoas.
Conseguiremos despertar tamanho impacto, este súbito arroubo de humanidade, na vida de estranhos? Sim, pois entre familiares, amigos e pares, o conteúdo chega, bem definido. E junto aos desconhecidos?
Resolvi testar a acessibilidade atitudinal, durante o pré-carnaval ,saindo sozinho, por dois meses. A regra era colocar o riso acima dos obstáculos, ter com o brinde uma espécie de pacto. Obter diálogo, contato forte o suficiente com a galera animada, das festas.
E assim foi feito.
Transpor a receptividade de tais momentos para o dia dia...Bem, algo complexo...
É preciso manter a cabeça erguida, o corpo atento na hora de passarmos pelas avenidas . Especialmente, com peito aberto, o coração generoso...A vida continua sendo a arte dos encontros.
Quando expandimos a nossa rede de afetos, com gente ainda sem iniciação com  o tema, exercemos uma pedagogia informal. Não menos influente.
Neste carnaval, ao balançarmos com as nossas rodas, pelas ruas, não estaremos paquerando, somente.
Acima de tudo, ocorrerá uma bem vinda e descompromissada reeducação sentimental !
Um abraço para todos.
André Nóbrega.



17 fevereiro 2019

Não nos chame pela sigla, não nos julgue como objeto



            Não creio ser culpa, reflexo do politicamente correto. Fato é que predomina, digamos assim, um cuidado(para sermos elegantes), na hora da sociedade nos classificar. Afinal, sem rotular, taxar julgamentos rasos, imprecisos, como denominar aquilo que ousa, teima em fugir do padrão?
            Os desvios, as fixações neuróticas, com vias de estabelecer um modelo de conduta sexual, um pensamento político hegemônico, configuram uma vertente da psicanálise, da qual nem conheço muito, pela teoria. Contudo, os dez anos como deficiente permitem elencar algumas observações, comentários sobre tal tendência.
Essa ânsia incontida de não aceitação, de cravar um modelo reinante, quanto ao padrão físico ideal, o tom de pele, a raça. Qualquer um nasce com uma dádiva, um dom da vida, para revertermos as expectativas implantadas, em razão de um pensamento ocidental excludente, seletivo, secular e racista, por natureza.
Sendo branco, vindo de uma família com recursos, de fato, demorou a ter noção, ciência da perversidade desse sistema. Precisou uma lesão neurológica devastadora, na potência, força dos meus 30 anos, para entender algumas verdades fundamentais.
Dois anos depois disso, quando, graças a muita fisioterapia, esforço, decepções, dores, consegui ter forças para tocar a cadeira de rodas sozinho, na rua, me veio uma sensação devastadora: eu havia perdido o direito de ser reconhecido, chamado pelo nome.
Pouco importava ao outro se eu tinha formado em cinema, trabalhado como crítico de filmes, e sabia de cor o repertório do Molejo, É o tchan e do grupo Sorriso maroto. O aspecto, o contorno fundamental, para tantos olhares, passou a ser uma cadeira. E por um bom tempo deixei de ser André, sem a princípio saber muito o porquê disso.
As siglas também apresentam uma tonalidade canalha, um tanto quanto funesta. Ao reduzir as particularidades, talentos de alguém a um conjunto de letras, ocorre uma morte. São sepultados os traços do sujeito, em nome de uma categorização aceitável, crível quando para pesquisas de dados, acerca das características, tipos de deficiência. Em amostragem como o IBGE realizou, em 2010.
Além desse contexto, com certeza, no indicativo feito para as vagas de trabalho, os assentos nos transportes coletivos, cabe o uso da sigla. Para toda a sorte, ordem de direitos sociais por nós adquiridos. Com exceção disso, por que cair ainda na mesma malha fina, deste terreno pantanoso? Um hibrido, formado pela ausência de sensibilidade crônica, déficit de bom senso e espírito de porco mesmo. Vamos dar nome aos bois, suínos, burros e nos deixar livres da obrigação, dessa mania baixa em quererem nos reduzir.
A partir de agora, ao invés de cadeirante, pcd, portador de necessidade especial, pode tentar algo tão inovador, quanto essencial?
Nos chame pelo nome!!
Um abraço para todos.
André Nóbrega


Foto tirada pela querida, talentosa produtora cultural, atriz e música Natália Lebeis.

10 fevereiro 2019

Inclusão profissional, sob a ótica de um pcd.


        Em tempos de crise econômica, recessão, voltam ao glossário das notícias, dos jornais, vocábulos um tanto incômodos, maléficos para o cotidiano comum a momentos de prosperidade.
No lugar do pleno emprego, da inclusão através de políticas sociais afirmativas, como o exemplo consagrado surgido, a partir do advento das cotas, tornam a ter destaque, no ritmo , na vida das pessoas, os agravantes trazidos pela escassez de emprego.
A falta de vagas configura um problema crônico, flagrante e comum não só a memória, como também, a construção de futuro do país. Porém, analises conjunturais à parte, parto aqui para o que interessa, configura o eixo temático principal desta coluna. Como o mercado profissional enxerga a inclusão da pessoa com deficiência?
Por experiência própria, posso revelar um dado perverso: nas agências de emprego, as vagas oferecidas atendem a um perfil, a um tipo de função diferente da que poderia executar. Os trabalhos no almoxarifado exigiriam um esforço físico desproporcional , em desalinho com a minha condição, por que requeria movimentos, ações desaconselháveis a alguém com dificuldade de locomoção. E também, para aquele que necessita de um trabalho permanente, exaustivo de reabilitação para prover melhoras, na minha condição.
Ressaltar o esforço de inclusão feito, insuficiente ainda para atingir um número considerável de pessoas com deficiência. Bem comum haver um tratamento uno, generalista, um tanto quanto paternal, vindo do mercado de trabalho.
 Falo especialmente da tendência a tratar todas as deficiências como sendo uma coisa só. E como consequência, as resoluções dadas para a questão mereceriam sempre a mesma abordagem. Sempre o único, preguiçoso desenlace para uma questão múltipla, por excelência.
Oferecer a mesma vaga de emprego, como auxiliar de escritório, para quatro candidatos. Um com baixa visão, o outro com nanismo, o terceiro com deficiência física, e o último, com deficiência neurológica. Todos reunidos pelo mesmo motivo, a mesma questão. Por atenderem aos requisitos da sigla pcd. Sinceramente...Isso é muito pouco.
Para complicar tudo a mídia nos faz um desserviço . É imbatível a ânsia, o apelo em querer nos retratar como super-heróis. Como seres imbatíveis, acima e além de qualquer intempérie, esforço ou contratempo.
Quantas vezes você viu a notícia do cadeirante formado em Direito? Da vestibulanda com um tipo peculiar de autismo , capaz de coloca-la, orná-la a uma condição intelectual de um gênio, porém, recém-egressa de uma peneira dificílima, como é a regra, a lei, para entrar numa faculdade de medicina? A mensagem subliminar é clara: não é tão difícil assim para gente obter êxito, vai? Basta  sermos guerreiros superdotados, com QI, capacidade de registro, arquivamento de imagens superior ao de um computador.
Ou então, quem sabe, entrarmos para o ‘’agronegócio’’’, passamos a agir conforme a natureza, o comportamento de um laranja. Do famoso ‘’Queiróz’' , presente no mais alto, nobre escalão, da nossa trágica, combalida república...
Só que não...Ainda é possível, palpável buscar uma integração ao mercado plena, proporcional as nossas limitações, mas ao alcance, no tamanho, na medida certa do tanto de talento, valor e encantamento de que poderemos oferecer a sociedade.
Sim, por que, como diria a letra dos Titãs: a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, ballet.. A gente quer saída, para qualquer parte.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.




03 fevereiro 2019

Atire a primeira roda quem nunca ouviu isso

André Nóbrega




            -Deus só dá a cruz a quem possa suportar!
            -Você é um exemplo de superação!
            -Sem querer ser mal educado, mas você ficou assim como??
         As barreiras, os entraves visíveis, a fazerem parte do cotidiano são meio óbvios, fáceis de serem identificados. Mesmo para o observador incauto, desatento as questões comuns, específicas as pessoas com deficiência, difícil não perceber a irregularidade das calçadas.
 Não notar a falta de estabilidade trazida, causada pelo calçamento irregular das cidades brasileiras. Aqueles de bom tato, afeitos ao exercício da cidadania, o desrespeito as vagas especiais também configura, aponta um caso claro, esdrúxulo, de falta de sensibilidade, respeito aos nossos direitos.
        Contudo, existe um fato mais difícil de mensurar, causado pelo impacto de certas falas. Persiste, na repetição de alguns dizeres, ditos a exaustão, a expressar um lado um quanto perverso da questão. Falo aqui da total indiferença, despreparo, no âmbito coletivo, de como o nosso sentimento é considerado.
       Sim, meus queridos e queridas, pois, no peito desafinado de uma pessoa fora do padrão físico, com Down, autismo, baixa visão, também bate um coração. Com total reverência, orgulho e gratidão a obra deixada por Tom Jobim e Newton Mendonça.
      Quando se reduz a complexidade de uma deficiência a uma espécie de tabuleiro cósmico-missionário, coloca-se um desvio para o tema. Falar de um fardo pesado demais para ser carregado, com um peso tamanho, incômodo, me coloca então, pelo raciocínio levantado, como alguém a ser crucificado.
         Nem como cruz, muito menos como mártir. O decantado lugar do exemplo não revela uma obviedade. O esforço em excesso para realizarmos tarefas simples, cuja mera execução exige um suor, uma entrega maior, revela um ponto essencial. Para deixar a discussão principal subtendida, posta em escanteio.
      Deficiente é o espaço, o lugar incapaz de prover condições mínimas para circularmos, gente. Para estarmos na pista, participarmos da vida, é inevitável enfrentarmos alguns perigos, entraves e obstáculos.
      O saldo disso nem sempre é heroico, garanto. Muitas quedas, tanto com relativo, ou alto grau de perigo, risco ao meu bem-estar, mas....Fazer o quê? O chamado das ruas, de brinde, possibilidade de encontros, festas, sobrevive, forte...Nessas calçadas ainda pontuadas pela dificuldade em me locomover.
    Quanto a tara, obsessão, em querer saber como a condição da deficiência surgiu, apareceu em nossas vidas, nenhum comentário a fazer. Creio, acredito piamente na evolução do indivíduo, durante o ruminar da sua jornada .
     Enquanto o mundo ideal, o éden da acessibilidade universal não é estabelecido, que  tal reformular alguns questionamentos básicos, no trato, no convívio com as pessoas com deficiência?
      Um abraço para todos. 





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