10 janeiro 2016

A bruxa que separa as pedras portuguesas

   
  Existe uma bruxa maldita, doida para me derrubar. O feitiço dessa velha não consiste em poções feitas, boa noites cinderelas distribuídos às almas desavisadas, ou rasantes panorâmicos com a vassoura feita para me atropelar. Não, de forma alguma. O poder maligno dessa senhora se apresenta de outra forma.

   Ela tem uma aparência muito mais assustadora das criaturas enrugadas, narigudas dos filmes da nossa infância. O mal que falo aqui é diferente da feiticeira que se transformava em cobra, estava fechada com o capiroto ,e que aparecia no primeiro filme do Conan.A desgraça é ainda pior do que o botox vencido, mostrado pelas apresentadoras de certos programas da TV, durante as tardes. Falo aqui de uma maldição presente à minha vida diária: a bruxa que tira as pedras portuguesas do lugar.

   Porque não é possível. Só pode ser algo sobrenatural haver tantas calçadas assim, mal conservadas, em qualquer lugar, por todos os cantos onde eu passe. A bruxa sabe os lugares pelos quais transito, e com diabólica antecedência. Por isso, trata de atrapalhar o meu caminho. Enquanto não me ver esborrachado no chão, a senhora não vai sossegar.

   Não basta apresentar um caminho difícil, é sempre possível piorá-lo, também. Pois a rua simplesmente complicada pelas pedras portuguesas pode, de repente, virar uma corrida com mais emoção do que qualquer Fórmula 1.Basta chover.E,se quando estiver na rua,logo depois de ter começado uma chuva,eu precise passar por um lugar com pedras portuguesas,você ,então, já sabe quem planejou tudo.Não me surpreenderei se um dia desses,junto com um trovão, eu ouvir uma risada diabólica.

  Tal como a caipirinha, o samba e a jabuticaba, a bruxa que separa as pedras portuguesas é uma característica do Brasil. Ao que saiba, pelas informações por mim recebidas, o asfaltamento de tais pedras em Portugal é diferente. Pelo que consta, as ruas com pedras portuguesas de lá não possuem o mesmo desnivelamento, a falta de cuidado e manutenção das pedras que aqui no Brasil existem.

  Desde então, com o intuito de quebrar o feitiço, tirar a influência dessa presença sempre mal intencionada, que me acompanha sempre, eu adotei uma postura radical.Eu parei de contar piadas a tratarem o Manuel,o Joaquim e a Maria como personagens. Vai que dá certo?

    Uma medida mágica, mas que deveria ser obrigatória seria a de contar com o esforço do poder público. Daí, talvez, de forma séria, contundente pudesse adotar um sistema geral de padronização das calçadas. Tornar a circulação das pessoas uma coisa mais amena, sem que o inconveniente de tantos espaços ruins, difíceis de andar impeça o direito sagrado (e garantido pela Constituição) de ir e vir.

  Eu uso andador e já reclamo da bruxa. Agora, imaginem com o que precisam lidar os cadeirantes, as pessoas com deficiência visual e os idosos com idade bem avançada que circulam pelas cidades brasileiras?Mulheres com salto alto, mães a conduzirem carrinhos de bebês também sentem os feitiços da bruxa que separa as pedras portuguesas.

  E aos amigos que jogam aquele futebol nos finais de semana, cuidado com as dividas, por favor. Qualquer torção no tornozelo sujeita a imobilização parcial da área machucada, se for feita por algum gesso ou tala vai alterar a sua maneira de andar.Aí,então,muito cuidado. Redobre a atenção ao atravessar as ruas e dobrar as esquinas. A bruxa está sempre alerta, esperando por qualquer vacilo seu.

 Creditar a precária condição de acessibilidade ao sobrenatural pode funcionar aqui, para uma crônica. A realidade se impõe de forma bem mais drástica e crua. Mas qual quadro é o mais fantasioso: um mundo paralelo ,habitado por seres fantásticos que atrapalham a manutenção das calçadas ou uma realidade feita por ruas que me integrem ,permita que eu ande para onde quiser, sem me preocupar?

 Ainda creio na integração plena, efetiva das pessoas com deficiência. Mesmo que algumas vezes isso me lembre dum enredo consolidado por divagações, e devaneios, feito o brilhante cenário relatado no romance ‘’Pedro Páramo’’,do escritor mexicano Juan Rulfo.
  
  A leitura dessa obra foi fundamental para inspirar o Gabriel Garcia Marquez.Após isso, o escritor colombiano,ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1982,encontrou novo fôlego ,uma súbita inspiração para prosseguir com a sua carreira como romancista. Garcia Marquez encabeçou um período da literatura conhecido como realismo fantástico.
  
 Que a gente nunca perca o prumo para construir novos caminhos, por mais encrencada, habitada por inevitáveis empecilhos a nossa estrada se apresente.
  
  Um abraço para todos,

  
   André Nóbrega.


Um comentário:

  1. Uma tradição sem sentindo já não existe a menor vontade em fazer realmente direito essas calçadas no Rio de Janeiro. Hoje quase cai no Leblon por uma pedra desforme que não foi batida corretamente.

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