30 julho 2016

Se não tiver acessibilidade, já pode considerar a minha ausência


   Durante um bom tempo cultivei uma visão ousada,dinâmica quando precisava sair para me divertir.Encarava qualquer situação,por mais desconfortável que fosse.Para combater o tédio,evitar a solidão, valia correr riscos,usar a corajosa prerrogativa de que vale tudo para encontrar pessoas,estar com quem gosto.

   A animação não acabou,nem a vontade de estar junto com a família.O contato com pessoas essenciais ao meu convívio é sempre um motor.No entanto,não vou mais fazer as estripulias de antes,ter de subir escadas com apoio,encarar banheiros como um malabarista.

  A pergunta capital,para saber se o local tem ou não acessibilidade, ganhou outra dimensão.Por mais acolhedores que alguns recantos sejam,mesmo com a considerável carga de boa vontade,afeto e carinho que alguns lugares me ofereçam,não farei nenhuma concessão.

  Daqui para frente,só frequentarei lugares nos quais possa chegar sozinho,circular com autonomia e sair quando bem entender.

  Tal decisão implica severas restrições.Com essa determinação em prática,eu ficarei limitado.Por um bom tempo,riscarei muitas opções já inscritas em minha rotina.

   Para propagar a solidez de um conceito vale à pena ficar mais só?

 Estou seguro que sim.Afinal,a procura por ilhas de inclusão,a busca por um oásis de acessibilidade vai me fazer aguentar a aridez da exclusão.

  Por defeito,ou qualidade,sou teimoso demais para aceitar algumas conveniências.Eu me recuso a ficar acomodado assim,com o quase conforto de muitas das áreas por onde circulo.

 Atravesso desgostoso os contornos mal feitos de muitas das rampas que conheço. Enquanto manejo o meu andador por ruas sem conservação,eu tenho raiva,sinto também vergonha de como o assunto é tratado.

 Estamos inseridos em uma cultura que premia a gambiarra.O fazer malfeito, de qualquer jeito não me satisfaz.

 Nenhuma mudança maciça acontecerá caso continuemos a nos contentar com pouco.

 O mundo nunca vai ser estruturado a partir das normas da ABNT.

Os dez mandamentos no meu momento não são a diretriz.Talvez,valham alguns ideais fixados pela Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos Humanos,formulada pela ONU.

 Mas como essas concepções de cidadania nos escapam.

Não vou fundar nenhum partido político, criar nenhuma ONG ou samba-canção.

Meus amigos, a letra é simples:

‘Se for me chamar para algum evento, alguma reunião, me diga antes como são as condições de acessibilidade do lugar’’.

A resposta precisa ser direta, curta e taxativa.

Com o tempo, se conseguir acrescer opções a esse menu limitado,estarei realizado.

Porque ando com fome para incluir,me conectar com espaços que respeitem,considerem o meu direito de ir e vir.

Mesmo sendo heterodoxo, ainda que a proposição possa soar radical, não custa repetir:

''Se não tiver acessibilidade, já pode considerar a minha ausência''.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.

            

23 julho 2016

E por que não falar sobre a cor dos meus olhos?

 Acontece com frequência,a seguir uma regularidade um tanto quanto incômoda.Falo do hábito de amigos e amigas de longa data,que nas redes sociais me marcam somente para fixar posts sobre um tema.São sempre pautas ligadas à acessibilidade.

   É compreensível existir a conexão.Afinal,já não é de hoje que venho exercendo uma militância na área.Pelo menos, naquilo que pode ser chamado da conscientização virtual a favor da causa.Dia após dia,utilizo a internet como fonte para divulgar notícias pertinentes ao tópico,assuntos trazidos à tona com o intuito de prestar informação sobre o universo inclusivo.

  Portanto,é natural ocorrer esse efeito de lembrança,suscitado por um contato virtual meu recente,vindo de algum conhecido com quem tenha pouca intimidade,reduzido convívio social estabelecido.

  Chato mesmo é receber de pessoas com quem tenha estima certa ordem de marcações no meu facebook.São os famosos recados em minha time line,para me mostrar reportagens,artigos sobre a inclusão.

   Através de palavras zelosas,sou marcado mais ou menos assim: ‘’André, já viu a matéria sobre fulano?Também é guerreiro,cara,que nem você’’.Tem também a clássica mensagem:’’Lembrei de você quando li essa matéria,Dé”.

   Fico decepcionado com isso.Pois,para um grupo considerável de afetos, parece que a deficiência passou a ser a única força,o único tema da minha vida.Virei um cantor condenado a repetir uma música só,regido pelo mesmo ritmo,sem grandes variações.

  Tão difícil contar para eles que o andador é um utensílio,muito mais um objeto usado para me locomover.Não é a cruz capaz de luzir uma dificuldade física minha.

  E as lembranças dos outros tempos,de quando não existia a roda de nenhuma cadeira, passaram a não ter importância?

 Ao invés de ser marcado em reportagens sobre deficiências,eu quero ser convidado para festas,churrascos e farras.

 Talvez,surja a necessidade de eu criar outras vivências com essa galera boa.Com certeza,todos querem o melhor para mim.Por algum motivo eles estão asfixiados,presos a uma percepção míope da deficiência.

 O afago é pedagógico,conscientizar pelo abraço,não pela denúncia,a revolta,talvez seja uma virtude recente.

 Vai chegar o dia em que eles vão mencionar sobre a minha adoração à poesia do Vinícius, sobre como adoro contar piadas infames e conseguir ser um legítimo boêmio calibrado por coca-cola.

 Além da militância, que tal lembrar outros aspectos nossos?Vamos variar o discurso, e falar de outras qualidades que temos.

 Por que não falar um pouco sobre a cor dos meus olhos, por exemplo?Só para mudar a letra?

 Um abraço para todos,

 André Nóbrega.
  


17 julho 2016

Nenhuma transformação surge sem alguns gestos kamikazes


 Estava eu, assim, numa tarde chuvosa, mal parado com a minha cadeira de rodas, bem numa rua do centro da cidade onde eu não conhecia muita coisa, mas cuja parca acessibilidade não me animava o espírito.
  
 Era tempos pré-uber,meus amigos,num momento da minha vida onde não estava ainda apto,com condições físicas a permitir a realização de muitas atividades.Mal sabia pilotar minha cadeira direito.Portanto,não conseguia pegar ônibus,muito menos circular por grandes trajetos.
  
  O círculo de programas sociais ficou restrito, os trabalhos os quais eu conseguia executar eram os famosos,alardeados como home office.Uma categorização chique,a esconder uma aguda restrição de possibilidades.
  
  Naquele dia, eu começava a entrar numa fase meio aventureira. Estava predisposto a fazer coisas perigosas para não ser massacrado pela rotina. Muito menos, queria ficar condicionado ao peso das lembranças do passado recente. De como tudo era antes da lesão.

  Tinha consciência do quanto se tornava urgente fundar outra existência.Nada do que havia vivido me servia mais.Assim seria por um tempo.

  Então,quando uma amiga minha me convidou para assistir a um show dela,abracei de imediato o convite.Sabia, de antemão, que por andar em uma área pouco conhecida, e com a ameaça de chuva, as calçadas poderiam ficar escorregadias, e alterar o controle da minha cadeira.

  Creio que nenhuma transformação surja sem alguns gestos kamikazes.A nossa primavera só poderá ser curtida depois do convívio com fundamentais invernos.
  
  A nossa independência, o grito de Ypiranga que quisermos dar, relativo a qualquer área, objetivo nosso, só poderá ser proclamado após cultivamos um senso de rebeldia.
  
  Porque se o ‘’não’’ passa a ser um requisito para várias das ações que vivemos, a força para revertemos tantos placares contrários vem de pequenas insurgências nossas,contra as determinações impostas pelas chances desiguais.
  
   O show da minha amiga foi ótimo. Detestei esperar tanto tempo para um táxi decidir me atender e resolver não me levar. Quando a chuva chegou, baixou desesperança, junto com a raiva por depender da boa vontade de taxistas malandros, um tanto quanto tendenciosos.

  Porém, após muita espera, ao chegar em casa,ficou um sabor de vitória.Porque,de alguma forma,encontrava ali um campo de germinação em favor do ‘’sim’’.

 Como cadeirante, foram 11 quedas, muitos sustos, e uma  certeza.Se eu ficasse no sofá de casa, num diálogo animado junto com as minhas paredes, eu estaria cerceado.Perderia muita da diversão, da parte louca, inesperada dos instantes oferecidos quando alimentamos uma saudável iniciativa de aventura.

 Sem saber como a calçada da próxima rua estará eu sigo, com o mesmo temperamento impetuoso.Somos delimitados pelas lesões, acorrentados por limites o tempo todo.

 Só saberemos onde poderemos chegar se o nosso atrevimento estiver desperto.Isso é uma tarefa sempre complicada e difícil.

 No entanto, existem tantas conquistas a serem obtidas. O nosso lugar nos pódios ainda vazios, mofados pela falta de oportunidades, aos poucos vai sendo ocupado.

 Porque viver a partir do gosto do risco,do improvável é também uma arte.Os atores, músicos, já sabem disso faz muito tempo.

 Não acredito muita na independência sustentada sem uma noção clara de ousadia, coragem para quebrar os limites impostos por nós mesmos.

 Para o castelo, a estrutura de sociedade justa e igualitária a ser feita, o cimento das nossas capacidades, talentos e atributos precisa estar reforçado.

Porque, como diria Caetano Veloso, na letra feita para a música ‘’Divino, maravilhoso’’, do Gilberto Gil:

‘’É preciso estar atento e forte, não tempos de temer a morte’’

Um abraço para todos,

André Nóbrega.


09 julho 2016

A ida na praia que me fez voltar a nascer



 Já havia acordado bem disposto, com o sono abraçado pelos benefícios de uma noite feita para o descanso. A súbita força adquirida incidia um novo humor a minha manhã. Estava fatalmente destinado a fazer algo grandioso naquele dia.

 Quando cheguei às ruas em nada importaram os buracos no chão.A cidade imperfeita,com a acessibilidade pouco planejada não ia conter o meu ímpeto.O desejo de realizar algo inédito era flagrante.

 Vinha uma vontade que conferia coragem e destemor aos movimentos conduzidos. O andador carimbava com o solo um novo abalo, pois os ecos das limitações sofridas, através de mais de sete anos de lesão, não me acompanhavam mais.

 Estava convicto de que deveria ir até a praia. Precisava sentir de novo a comunhão com a areia. Sendo um carioca criado a partir desse rito sagrado, acostumado a conviver com o mar, a ruptura com esse hábito teve o mesmo caráter  de uma violação.

 A experiência da praia, tal como ela era feita até os 30 anos era uma.Pude,através do magnífico projeto Praia Para Todos,ter um outro tipo de contato com a emoção do mar.

 No entanto, o que buscava neste dia diferia do conceito de banho de mar assistido. Amanhecido com uma disposição tão própria, certa quanto aos passos a serem dados, não havia espaço para preencher o tempo com dúvidas.

 Jamais havia tentado usar o andador em cima da areia. Sabia que qualquer manejo mal feito, giro realizado sem cuidado ali poderia resultar em algum tipo de lesão.Mesmo assim, me senti tocado,regido pela coragem, vinculado a um sentimento de proteção.

 Fui devagar com o meu andador por aquela massa fofa. Munido com cautela, levantava,depois,subia o andador.Era capital calcular a força,empreender um contato suave com o solo.

  A areia não era mais um obstáculo, ela voltou assumir a mesma característica de sempre. Por muito tempo a areia foi uma montanha gélida e distante. Era, sobretudo, a lembrança de um tempo feliz, de repente fechado para novas escaladas. Eu olhava para a praia com rancor, por ficar tanto tempo desvinculado da minha identidade.

O barraqueiro amigo ofereceu cadeira, apoio para eu puder me instalar. Pude brindar com mate leão o renascer de um novo tempo.

Por muitas vezes, me julguei incapaz de desfrutar sozinho de um instante assim,de novo.Mesmo tendo ficado parado na cadeira,sem mergulhar na água,a vista do horizonte,o burburinho das ondas a se debaterem no chão me preenchiam.

Enquanto agradecia a Deus por aquele instante, eu jurei também ir ao encontro de toda a proposta de vida capaz de me elevar.

Conquanto que o número de privações impostas seja absurdo, ainda que a quantidade de dificuldades continue elevada, eu jurei ali desenvolver uma atitude mais vibrante de vida.

A deficiência não pode ser maior que o nosso desejo, a nossa gana de preencher nossos caminhos.

Nesta semana, sozinho, eu cheguei pela primeira vez a areia da praia. A vontade de dar um mergulho no mar vai incentivar cada sessão de fisioterapia agora.

Porque quando navegamos pelos ventos das nossas escolhas,quando conduzimos o barco amparado pelo guia da nossa própria vontade, nós iremos atravessar as inevitáveis tormentas com outra resistência.

Sigamos assim, sempre ensolarados com as nossas pretensões.

Um abraço para todos,


André Nóbrega.


03 julho 2016

Somos apenas pessoas,gente.

  Ao longo dos tempos já obtivemos várias classificações, com termos que quando hoje analisados,pareceriam absurdos.Tudo aquilo cujo entendimento foge da denominação padrão,infelizmente,necessitará disso.

 Rotular é preciso,integrar não é pré-requisito.

 É como se uma nomenclatura bem empregada, uma sigla de fácil assimilação pudesse facilitar a quem não possui uma deficiência um entendimento, uma explicação mínima e rasteira do que passamos.
 Aleijado,defeituoso,incapacitado são palavras estrangeiras ao meu cotidiano.Elas em nada traduzem o esforço que efetuo para estudar,trabalhar,e manter com a vida um forte diálogo de participação.
Difícil acreditar que até pouco tempo atrás tais distinções eram empregadas.Pois, acreditem,até a década de 80,essas eram maneiras comuns.E ainda pior,elas faziam parte do vocabulário empregado para nos identificarem.
  Em 1981,houve o Ano Internacional das Pessoas Deficientes,proclamado pelas Nações Unidas. A ação clamou a atenção do mundo para a desigualdade de oportunidades as quais éramos submetidos,visou enaltecer o papel da reabilitação,e o da prevenção de deficiências.
  Devido às repercussões trazidas pela empreitada, o uso da expressão ‘’pessoa deficiente’’ começou a ser usado pela primeira vez. E, assim,foi disseminada,de forma recorrente,a nova alcunha. O termo ‘’pessoa deficiente’’ passou a ser empregado por inúmeros veículos de informação, e ONG´S,entidades políticas compromissadas na luta por nossa inclusão.
  Marco definitivo foi o trazido pela Constituição Federal de 1988, ao intitular a expressão ‘‘pessoas portadoras de deficiência” uma chancela oficial. A iniciativa tinha como objetivo identificar a deficiência como um detalhe da pessoa.Tal expressão passou a encampar todas as leis criadas,as políticas definidas para nos favorecerem.
  Enfim,em 2006,a expressão ‘’pessoa com deficiência’’ foi consagrada pela Convenção sobre os Direitos da Deficiência, da Organização das Nações Unidas (ONU). É com certeza uma maneira de se referir a gente muito mais digna,justa do que nos pautar como inválidos,por exemplo.
  Ainda assim,eu teimo,implico com essa determinação imposta. Acho-a adequada para exigir melhoras ,forte quando precisamos requerer e consagrar direitos.
 A sigla pcd é perfeita para constar em manuais sobre normas de acessibilidade, documentos oficiais e decretos leis.No entanto,considero a expressão ‘’pessoa com deficiência’’ um monumento à impessoalidade.
 Temos sim um direito a singularidade, uma vocação de nos expressarmos como sujeitos autônomos, com vontades próprias.
 Perdemos uma grande chance de sermos reconhecidos pelas nossas qualidades,por aquilo que ressoa quando aceitamos essa determinação sem questioná-la.
 São muitas as partes a nos constituírem.Quantos talentos,capacidades nossas ficam enterradas,deixam de virem à tona quando aceitamos ser reconhecidos por uma expressão que ainda nos desqualifica?
 Ao invés de pessoa com deficiência, por favor, me chamem de André.
 Um abraço para todos,
 André Nóbrega.

 



25 junho 2016

Todo militante ativista é um pouco mendigo.


  Amigos leitores,se tem uma coisa perturbadora, capaz de sempre me fazer alimentar um sentimento de negatividade quanto ao destino da raça humana, isso tem a ver com o aumento da população de rua. 


    Pior do que qualquer buraco, ou pedra portuguesa estirada pelo chão, é encontrar pelas madrugadas os corpos mal encobertos por cobertores curtos, comprimidos e entregues a sabe lá de Deus que tipo de sorte.

 Em comum com os mendigos,com a população maltrapilha que se espalha por todas as cidades, há o sentimento de exclusão. 

  Ainda que a comparação seja injusta, indevida em muitos aspectos, consigo pontuar com clareza alguns aspectos que nos unem. Pois, o sentimento de estar desconjuntado, fora do ritmo da vida, ainda me assola. 

  A pessoa com deficiência no Brasil rema contra uma maré constante de dificuldades. Para exigir coisas básicas, como poder circular pelas ruas,ter direito a melhores condições de trabalho,nós sofremos com a visão tacanha da política.Muitas vezes,ficamos submetidos a ações do governo que têm o mesmo efeito de uma esmola. 

Estar invisível, pouco afeito ao processo de participação de um viver pleno, em ressonância com  as demandas exigidas pela sociedade, é o risco que todos corremos caso aceitemos o peso da balança injusta.Porque muitas oportunidades ainda teimam em nos favorecer. 
 
 
Quando preciso falar para alguém sair da vaga especial,quando peço para algum motorista que retire o seu veículo do lugar reservado ,ganho mais familiaridade com a rotina dos desalojados.

   Só que ao invés de pão, eu clamo por um grão de consciência das pessoas.Porque nos falta uma lógica de integração. 

  Cada vez mais nos atinge a falta de uma visão sistêmica,capaz de analisarmos o país com maior humanidade.Estamos sempre divididos,conscientes das nossas ideologias.

   Em tempos de recessão,onde até os reinos que eram unidos debandam por um esforço de separação,nós compactuamos apenas com quem pensa ,age e recebe dividendos de forma compatível com a nossa.

 E,assim,muitos caminham,com larga insensatez e um colo de mãe feito para abrigar a própria intolerância.Não surpreende que aqui no Brasil se confunda Direitos Humanos com a defesa de bandidos.

   Lógica miserável essa a que glorifica o padrão. Maldita toda e qualquer exaltação ao corpo ideal, ao carro que nunca teremos, ou a ausência de fraternidade por qual estamos sendo guiados.

Mesmo assim,nem tão certo,mas nem muito torto,eu prossigo.

Enquanto passo por alguém em situação de abandono, não faço muita coisa. Apenas procuro andar silencioso. Em situações assim, eu zelo pelo sono dos desassistidos como o amor nutrido pelos meus familiares.

Isso é muito pouco.

 Eu queria me livrar dos andadores, das muletas que teimam em me perseguir .Pelo menos uma vez ,gostaria de erguer as mãos ao meus anônimos vizinhos,tão desprovidos de tudo.

 Mais relevante do que qualquer campanha de inverno,visando a arrecadação de cobertores é a nossa luta, que almeja a consolidação de uma existência mais consciente e inclusiva.

 Para que um dia nenhum de nós, em nenhum canto,ou avenida ,precisemos mendigar por aquilo que deveria ser obrigatório e justo.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.



22 junho 2016

Conhecendo o badminton adaptado.


Hoje fui conhecer mais um esporte que a prefeitura de São José dos Campos-SP esta tentando desenvolver para pessoas com deficiência, o badminton.
É uma atividade física bem interessante que exige movimentos rápidos e muito reflexo, mas, hoje fui apenas para conhecer e confesso que gostei, por isso pretendo voltar mais vezes ai vou passando os detalhes aqui no Blog.
Vui...
Wanderlei Marques de Assis

18 junho 2016

Vai chegar o dia

 Vai chegar o dia em que a palavra acessibilidade estará gasta, vazia devido a linda estrada de militância,que muitos antepassados nossos souberam percorrer.Todos estaremos incluídos,enfim integrados aos espaços.

 Finalmente, o direito de ir e vir estará consagrado. Isso não precisará estar escrito em nenhuma constituição. Nenhuma lei precisará mudar aquele jeito nosso, a maneira de conceber a mais nova e revolucionária cidadania.

 Porque vai chegar o dia onde andarei pelas noites tranquilo.Sem me preocupar com buracos nas ruas, a falta de um transporte público digno,e sinais de trânsito de duração assassina ,a me obrigar a fazer malabarismo no asfalto.
  
 Para cada andador quebrado haverá uma mulher linda, parada na esquina, pronta para me dar carona. Será um ato tão espontâneo, um gesto formatado por tanta gentileza e amor ao próximo, que não estranhem se essa mesma mulher linda quiser viajar comigo. Embarcaremos numa viagem de pura inclusão, rumo a praias desconhecidas na Bahia.

 Vai chegar o dia na qual lembraremos sem saudades daqueles dias. De um tempo confuso,bem distante.Segundo os relatos apresentados pelos livros e filmes,quem apresentasse uma condição física ou mental diferente recebia um nome estranho.Era classificado,reconhecido como deficiente.

 Daí, recordaremos que a falta está longe de ser a chama que nos movimenta. Brindaremos com louvor, orgulho, pois mesmo quando vivíamos encobertos pelo manto da desigualdade, nós mantivemos a vida aquecida.

  E,ao contrário de um mito difundido,comumente espalhado na era das desigualdades, nós, de forma alguma quisemos servir de exemplo para alguém. Ouviremos sem atenção, alegria quando alguém quiser propagar uma lenda urbana, também atribuída a essa temerosa época.
  
  Era comum nos enxergar como coitados. Teria isso a ver com uma crença estúpida. Como se estivéssemos aqui para sofrer, como se adorássemos nos fazer de vítimas das circunstâncias e reclamar de tudo. Como no passado alguém pôde pensar isso da gente?

 Agora, a madrugada que avança chega bem fria,sem me abraçar com grandes possibilidades.

 Vou acordar amanhã sem encontrar nenhum resquício do quadro acima relatado. No entanto, isso não pode minar o desejo por uma sociedade mais justa e igualitária.

 Ainda vai chegar o dia em que as diferenças não vão pesar tanto.

 Fiquemos firmes,fortes em nossa luta.

 Um abraço para todos,


 André Nóbrega.

  

12 junho 2016

A solidão pode ser uma deficiência.

   Para quem quiser ouvir uma história romântica, recomendo ouvir alguma coletânea do Roberto Carlos, ou mesmo, uma lida pela obra do poeta Vinícius de Moraes.

  Hoje muitos comemoram o dia dos Namorados. A minha sintonia com a data é a mesma de um ateu órfão na ceia de Natal. Não existe muito que comentar sobre isso.

 Porque calhou da semana de provas cair na faculdade logo nessa semana que começa.Portanto,a minha paixão é destinada somente aos livros.Vivo um caso de amor desmedido,inevitável com o saber.Nem sinto falta da mulher amada, a me chamar para a coberta.

 Vivo casado com uma causa. Ela me absorve de tal maneira, me preenche com tanta felicidade, que os prazeres e alegrias do amor pouco me atraem. Ainda que isso signifique uma frustração para tantas mulheres, todas sedentas, dispostas a me conhecerem.

 Mesmo sem ser o Papa, já me acostumei com a castidade exigida pela cruzada da inclusão. Para me dedicar de corpo e alma à luta pela acessibilidade, decidi inibir os meus desejos. Tal sacrifício não será em vão . Se isso já valeu para os santos, por que não se aplicaria a mim também?

  Já fiz tantos versos para alimentar histórias de afeto. O percurso sentimental foi até bem preenchido. Não tem razão para lamentar a data de hoje. É apenas um empreendimento comercial, bancado pela indústria de chocolates, pelo poderoso lobby dos floricultores e pela implacável associação das indústrias de cobertor para dois. Já li no facebook umas cinco teorias sobre isso.
  
 E, na boa, vou reclamar de quê??Com NetFlix,comida congelada e tantos livros para serem lidos,como eu posso me sentir sozinho?
  
  Agora me confundi. Hoje é primeiro de abril ou dia doze de junho?Sei lá, com as provas, tanta matéria por estudar, eu posso me confundir. Daí, seria perfeitamente comum eu misturar as estações, visto que o meu humor está azedo que nem limão estragado. Preciso separar bem as datas do meu calendário.

  Porque não tem desculpa, nem mimimi.Vou à caça,dar a cara à murro e fazer o possível para ano que vem mudar o meu estado civil.Porque a solidão pode ser uma deficiência.

 Estar sozinho pode virar uma conveniente muleta.Principalmente se acreditarmos que vivermos sem compartilhar nossos momentos é uma imposição do destino,uma consequência vinda junto com as limitações com as quais nós precisamos conviver.

 Portanto, começamos a existir regidos por um princípio da negação.Quanto mais crédito darmos a essa crença,mais aprisionados ficaremos.

  Ficar em casa contra a vontade é sempre um castigo. Ainda que não possa transitar pelos lugares como gostaria, ainda que a falta de acessibilidade seja um empecilho para eu me divertir, predomina de forma mais intensa a vontade de conhecer uma cabrocha, capaz de percorrer comigo intensas avenidas.

  Fazer mais com menos. Não posso correr, nem falar como antes. Porém, cativar as pessoas não é uma coisa tão difícil.

 Talvez,eu esteja construindo barreiras. Com isso, também impedi que pessoas interessantes se aproximassem.

  Porque a fase de adaptação da realidade, mudança drástica de hábitos já passou. Enfrentamos muitas dificuldades em nosso cotidiano.Contudo, podemos ser viajantes solitários, ou tentarmos embarcar numa navegação a dois, rumo a continentes ainda não identificados.  

 Temos sempre a chance de construir inúmeros dias e noites dos namorados inesquecíveis.
  
Um abraço para todos,


 André Nóbrega. 


04 junho 2016

O que a Nise da Silveira pode nos ensinar.

 O Brasil passa por uma crise de representatividade. Na atual conjuntura, qual a grande liderança nacional capaz de angariar qualidades fortes o suficiente para nos orgulhar?A situação de descontentamento não é privilégio da nossa classe política, grupo com o qual já mantemos há algum tempo um sentimento de desagravo.

 Na antiga terra do futebol, na seleção do pós 7 a 1 você consegue identificar no time do Dunga muitos jogadores com o futebol grandioso para nos fazer acompanhar os jogos do time da CBF com algum interesse?

 Triste é o país que depende das ações de um juiz, que aplaude com fervor as ações de uma operação contra os mal feitos da política como se fosse uma cruzada consagradora, capaz de lavar todos os pecados cometidos por aqui desde a chegada de Cabral,em 1500.

 Cada vez mais eu busco o exemplo de figuras do nosso passado. Tivemos sim pessoas que atuaram como autênticos multiplicadores de sonhos. As sementes plantadas por esses tesouros é tão sólida que precisa ser reforçada.O esforço contínuo para a perpetuação da obra por eles deixada tem que haver.

  Por que,afinal,a herança deixada por avatares como Rubem Alves,Tom Jobim e Darcy Ribeiro deve ser esquecida?Em tempos incertos, caracterizados pela falta de justeza moral, pela desconfiança geral quanto aos rumos do nosso país, não ter uma liderança em quem confiar já é algo temeroso. Teremos perdido a capacidade de construir futuros transformadores da realidade?

  A psiquiatra Nise da Silveira, através do revolucionário trabalho realizado pelo ‘’Museu do Inconsciente’’, deu outra dimensão ao modo como os manicômios brasileiros tratavam os seus pacientes.

 O filme “Nise-o coração da loucura’’,dirigido por Roberto Berlinder,é uma aula de humanidade.A história nos coloca em contato com uma sensação diariamente minada pelos massacrantes telejornais.Depois de assistir o filme é possível voltar a ter orgulho de ser brasileiro.

  O filme começa em 1944, ano no qual Nise da Silveira é reintegrada ao serviço público, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II.Nise,de imediato,se defronta com a conduta brutalizada,desumanizada vinculada aos internos da instituição.Eletrochoques,lobotomia eram práticas permitidas,avalizadas pela psiquiatria então vigente.

  Transferida para a Terapia Ocupacional, um setor esquecido,tratado como área de pouca relevância pelos médicos do Centro Psiquiátrico ,Nise inicia os seus trabalhos.

  Ao invés de executar pura e simplesmente tarefas de limpeza, manutenção do lugar, a psiquiatra cria ateliês de pintura e modelagem para que todos os pacientes se expressassem da forma que melhor lhes conviesse.

 Um canal de extrema evolução foi aberto. Pessoas segregadas, sem terem a menor chance de poderem se manifestar, de conseguirem dialogar ,estabelecer com a vida uma forma de expressão, passaram a obter um canal de estímulo.

 A falta de acessibilidade muita vezes nos isola. A dificuldade que temos para viver, trabalhar e nos divertir, muitas vezes nos desanima. Se essa sensação evoluir muito, acabamos por optar pela comodidade do lar,por não participarmos da vida como poderíamos.

 Pelo fato das dificuldades aparecerem de forma mais contundente, podemos enfim perder o ânimo, depois,não suportamos os pesos trazidos por tantas diferenças. Diante de um contexto tão desfavorável, não lutarmos por nossa cidadania e acharmos normal sermos excluídos do processo de inclusão passa a ser algo automático.

 Nise da Silveira construiu uma estrada para quem parecia inutilizado, e se mantinha hibernado no limbo da existência. Os pacientes da instituição, antes de conhecê-la,em muito se assemelhavam com animais abandonados,entregues à própria sorte.

 Mesmo com tantas oportunidades desiguais, não podemos entrar na armadilha do confinamento. Sabemos o quanto a efetividade dos nossos direitos passa por uma luta permanente.

  Não podemos desistir. E,muito menos, abdicarmos de encontrar as habilidades, os talentos capazes de nos distinguirem. Não é somente a falta,a desigualdade, o valor único que nos inspira.

 Queremos mostrar ao mundo o quão talentosos podemos ser.Com mais oportunidades,com certeza surgirão entre nós números artistas,médicos,atletas.

 Sobretudo,haverá a possibilidade para que pessoas plenas da sua capacidade possam aparecer.

 Nós podemos mais.

 Tem dúvidas disso?

 Por favor,então veja o filme ‘’Nise-o coração da loucura’’ e se junte a nossa corrente.

 Um abraço para todos,

 André Nóbrega.


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