24 abril 2016

Um golpe na esperança.


  Um golpe na esperança. Assim recebi a notícia do desastre na ciclovia Tim Maia, ocorrida na última quinta-feira, 21 de abril, no Rio de Janeiro. No mesmo dia em que a tocha olímpica saía da Grécia, o céu do feriado presenteava a cidade com um sol espetacular, sem possibilidade alguma de tempo ruim prevista pela meteorologia.

  Desde então, tenho notado um clima diferente por aqui. No domingo, durante um passeio pela orla, o dia novamente belo não impediu o calçadão da praia de ficar vazio. Vazios ficamos todos. Ontem, ao rodar por alguns bares, não vi nada que lembrasse o estado de espírito que nos tornou conhecidos. As mesas, de tanto espaço, faziam a minha tristeza se perpetuar.

 Nesse feriado todos convivemos com um luto. Feito uma quarta-feira de cinzas prolongada. Em particular, o tombamento na ciclovia ruiu um pensamento meu cultivado ao longo dos tempos. Eu acreditava no legado que os Jogos Paraolímpicos pudessem trazer à nossa causa.

  Quem é deficiente físico no Brasil precisa lidar com imprevistos. Não temos escolha, para executarmos atos simples corremos riscos. A falta de condições é um dos alimentos para brigarmos por melhoras na nossa vida. Porém,diante de uma tragédia como a ocorrida na última quinta,eu revejo alguns conceitos meus.

  Entrei em 2016 agradecido por viver um momento histórico para a nossa luta. Pensava comigo: ’’além da Lei Brasileira de Inclusão, nós teremos os Jogos Paraolímpicos’’.

 Não tenho dúvidas quanto ao sucesso esportivo da empreitada. Nossos atletas promoverão um reencontro com um sentimento há muito perdido. Cada vitória nossa, cada medalha no peito nos chocará com um pensamento impossível de ser conjugado atualmente: o orgulho de sermos brasileiros.

 Ainda entristecido, procuro evitar ver a imagem da onda que despedaçou a ciclovia. O que ruiu foi um modo de fazer política obsceno, maculado pela corrupção, pela total falta de respeito com a vida das pessoas. Essa conduta sem noção ninguém aguenta mais. Batemos todos os recordes da canalhice possíveis.

 Mesmo assim, precisamos crer na força dos atletas paraolímpicos. Deles virão os maiores legados para o Brasil que precisamos construir.

 Aquela onda que se debateu contra a ciclovia interrompeu trajetórias de cinco pessoas,sacolejou a última fé restante quanto ao sucesso organizacional dos Jogos no Rio.

 Mas, a nossa luta prossegue,resistindo a maremotos, insanidades políticas e a toda privação que impeça a nossa cidadania.

 Apesar de todos os pesares, precisamos resistir. Nada nos virá fácil.

 Um abraço para todos,


 André Nóbrega.    


18 abril 2016

Para o Nick Vujicic presente em cada um de nós


   Na Rede Sarah,durante a minha primeira sessão de terapia especial em grupo,  a instantânea injeção de ânimo veio com o exemplo do australiano Nick Vujicic.Os vídeos à disposição no You Tube corroboram isso.Vale muito a pena conferir.

   O australiano Nick Vujicic nasceu no dia 04 de dezembro, no ano de 1982 em Melbourne(Austrália) sem as extremidades do corpo.Como pode alguém existir, habitar e planejar a vida sem os braços e pernas??Isso pressupunha um atrevimento.A comoção familiar era prevista,ela foi contraposta pela constatação de que Nick,apesar das deficiências físicas encontradas, era um bebê saudável.

  Um elo fixado pelo amor absoluto foi criado entre os membros da sua família. Os cuidados ,o amor recebido em casa não impediram os embates do menino em sua vida escolar.Nick Vujicic não possuía a aptidão física para acompanhar as atividades de todas as crianças da escola.
 
 O inconformismo,a rejeição inevitável o condimentaram a uma carga elevada de sofrimento.O apreço familiar,além da inacreditável vontade de reação fizeram insurgir nele uma atitude fenomenal.O processo doloroso dessa fortaleza australiana é verificado no vigoroso consultor empresarial com o qual nos deparamos hoje.Para o grupo de terapia do Sarah foi um início animador.Sobretudo para sedimentar uma convivência como a que o grupo de terapia intensiva iria encarar.

   Além de mim,havia naquele grupo dois cadeirantes recém-lesionados e outra pessoa com uma doença congênita,que veio a se tornar uma valiosa amiga minha.Ninguém se conhecia anteriormente.A conexão do grupo começou a ser alimentada pelo exemplo transmitido.

 Nós estávamos incentivados pelas habilidosas colocações de uma psicóloga e uma assistente social,ambas especializadas no tratamento de situações traumáticas.Aos poucos, o grupo foi timidamente partilhando visões, para em seguida, promovermos um compartilhamento das vivências passadas.Havia muito a ser dividido e após quatro reuniões, todos os envolvidos ficaram transformados,frutificados pela oportunidade oferecida.

  O exemplo do Nick Vujicic foi o marco inicial para o sucesso da terapia em grupo. Contudo, pelas condições do seu delicado quadro médico e a sua extraordinária força de transformação, constitui uma exceção clara.

  Ninguém precisa começar tocar violão com a obrigação de se tornar um Baden Powell, ou de começar a jogar futebol e logo ser o novo Messi.Os limites são grandes amigos nossos, a convivência com eles nos disciplina , nos condiciona a melhorar.

  Mesmo assim,é uma relação de amizade, onde o cuidado e o o respeito precisam estar bem determinados.A superação,a gana e vontade de viver são características comuns a todos nós.Mas o australiano Nick Vujicic condicionou tudo isso a uma prática existencial magnífica.

Que nós consigamos alimentar o Nick Vujicic presente em cada um de nós.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.




11 abril 2016

A legião de seres resilientes,tenazes.

  Sou guiado por algumas situações.Quando estou na rua sempre me atento para encontrar algum cadeirante,alguma pessoa com deficiência que possa estar perto de mim.E as razões são muitas para isso acontecer.
  
 Quando encontro pessoas que optaram por estarem na rua,mesmo com as reconhecidas adversidades com as quais precisamos nos defrontar,fico tomado por um sentimento de satisfação.

  Apesar dos pesares,continuamos na luta pela interação social. A rua,mesmo com seus empecilhos,é também o lugar para conhecermos pessoas,passearmos.Podemos sentir a vida com mais força quando saímos de casa.
  
 Ao procurar nas ruas por pessoas com deficiência eu alimento a minha militância.

 Embora a demanda da acessibilidade seja um fenômeno incontornável, os esforços para lidar com a questão ainda ocupam um posicionamento político tímido do nosso governo.

 Os espaços para a circulação nos desfavorecem. No entanto, para fazer valer o conceito de cidadania que nós desejamos,primeiro nós precisamos ser notados.

 Quando mais pessoas com deficiência nas ruas trabalhando, tentando usar o transporte público,maior será o olhar da sociedade sobre as nossas demandas.

 A invisibilidade nos persegue. Ficamos muitas vezes mais íntimos com o mundo das faltas.Na maior parte das vezes é mais fácil computar a quantidade de direitos que não nos atendem.A semente,a necessária vontade para fecundar mudanças não são alimentadas.

  E,realmente,se cada um de nós parar,começar uma lista do que poderia melhorar, teremos todos itens variados para enumerar.Para não dizer infinitos.
  
  Acredito no valor dos pequenos gestos.Percorrer a cidade com o meu andador,andar de ônibus nunca são ações fáceis,de tranquila execução.

  Porém,por ser teimoso e crer muito na luta pela inclusão ,eu adoro encontrar nas ruas pessoas , gente com uma rebeldia semelhante a minha.Aqueles cuja deficiência permite levar  uma rotina produtiva.  

 O inconformismo, quando bem alimentado,é um capital poderoso para solidificar mudanças.Vai demorar muito para a acessibilidade ganhar a atenção de que lhe é devida.As mudanças capazes de melhorarem a nossa realidade demoram a acontecer.Além do mais,a evolução nunca é compatível,nem proporcional ao que precisamos para conseguirmos viver com dignidade.

  Ainda precisarei andar um bocado por ruas esburacadas, avenidas com sinalização desfavorável,a me obrigar a atravessar a rua em tempo sempre difícil de ser cumprido.

 Mesmo assim, a alegria sentida a cada vez que encontro cadeirantes na rua me impulsiona.Não estou só nessa luta.

  Existe uma legião de seres  resilientes,tenazes,que,mesmo com tantos obstáculos,sempre prossegue firme em sua caminhada.Vejo isso sempre nas ruas.

  Que sejamos sempre assim.

  Um abraço para todos,

  André Nóbrega.




03 abril 2016

O bar que foi a minha reabilitação existencial

   O momento pós-lesão é sempre um calvário.Além de ser penoso para quem acaba de sofrer o baque,também se mostra como uma situação complicada para os nossos familiares.Ninguém está preparado para o fato;lidar com isso não é algo a ser lido em nenhum manual.

 Comigo, além da fisioterapia, computo outros fatores para a minha reabilitação. Primeiro vem o amor incondicional dos meus pais, do meu irmão, que mesmo confusos, entristecidos com a situação, foram pródigas fontes de incentivo. Classifico a força dada por amigos,amigas,primos,primas como algo indispensável para achar força naqueles tempos sombrios.

 Mesmo assim, predominava um evidente desconforto com a situação.E não era para menos.Até os meus 30 anos,eu corria,sorria e jogava bola como qualquer pessoa comum.E,de repente,não mais que de repente,vem uma lesão neurológica e muda tudo.

 Fiquei seis meses conseguindo mexer somente o pescoço,com o corpo paralisado,totalmente atônito,inseguro quanto a qualquer perspectiva de futuro.Sem a família,as visitas de pessoas ansiosas para me encontrarem,saberem como eu estava,teria sido quase impossível prosseguir sem enlouquecer .

 O terceiro fato que eu classifico como fundamental foi passar a ter frequentado um bar, bem perto da minha casa. O bar Rebouças me acolheu, reconheceu de imediato a pessoa que ocupava a cadeira. Não era um cadeirante tristonho a vagar pelas ruas. Eu era o André, doido pela coca-cola em garrafa do lugar,e querendo achar um espaço para recomeçar.

 Meus novos amigos, ao invés de terem pena de mim,escolheram brindar à vida comigo.

  Embora tudo seja difícil para a gente, eu defendo o direito sagrado, constitucional de termos um espaço para rirmos, falarmos besteira, paquerarmos e comentarmos trivialidades.

 Esse tesouro das pequenas coisas, essa poesia que o cotidiano pesado insiste em nos afastar, pode ser alimentada.

A minha fisioterapia existencial foi feita nesse bar. Ali tem sido o palco dos meus melhores momentos. O drama é sempre suavizado pelas piadas, pelo clima bem humorado, informal e despretensioso comum a tais estabelecimentos.


Porém, o bar Rebouças é diferente. Ele faz com que você de imediato se sinta à vontade com o ambiente. Por ali trabalha o inacreditável Jorginho,já eleito o melhor garçom do Rio.Lá mesmo,encontrei uma galera que passou a me levar em casa com a cadeira.E depois, começou a me chamar para festas,viagens,churrascos.

 Dedico essa crônica a todos os meus amigos, amigas desse bar fantástico, e dizer que o meu caminho ficou muito mais fácil quando passei a conviver com vocês.

Um abraço para todos,

André Nóbrega.






27 março 2016

A nossa Páscoa fundamental de cada dia


 Dentre todas as festas do calendário cristão, a que mais me representa, me emociona é a Páscoa. E nem é pelos chocolates,posso lhes garantir.Sou tocado sobretudo pela simbologia da data.

 Afinal, hoje ,no domingo de Páscoa ,a ressurreição de Jesus Cristo é evocada de uma forma muito bonita.É um tempo que nos convoca a uma reavaliação obrigatória,feita sem muito rigor,naquele efeito prazeroso de um almoço junto com a família.

  Credito a capacidade de se reinventar como sendo uma qualidade essencial, para toda e qualquer pessoa. No nosso caso não existem muitas opções. O espírito de renovação, a capacidade de nos insurgimos após as piores quedas não é uma escolha.

  Temos que alimentar uma condição para a Fênix,a ave mitológica que renasce das cinzas,voar sobre certos momentos da nossa trajetória.Isso é um pré-requisito para vivermos. Estamos numa sociedade desigual, diferente em relação as oportunidades que nos são oferecidas.Não é por sermos perseverantes,por alimentarmos como princípio de vida uma força de resiliência que nós sejamos especiais.No entanto,o talento para ressurgirmos talvez nos torne mais interessantes.
  
  A nossa Páscoa fundamental de cada dia acontece, e sem o sabor doce conferido aos ovos de chocolate.Somos consagrados pelo princípio dessa significativa data quando necessitamos pegar um ônibus,e, para cumprir o feito,encaramos ruas perigosas, a boa ou má vontade dos motoristas que poderão ou não parar com o veículo.E,depois,ainda ficamos em assentos mal conservados.

 Nós ressuscitamos em situações assim porque matamos muitos sentimentos autodepreciativos. Na rua,ou você vai firme ou ela te racha.Não dá tempo para pensar muito,sobra espaço na mente para os detalhes do caminho a ser feito.Depenamos a possibilidade de sentirmos pena de nós mesmo quando conseguimos trabalhar.

  Quando aplico o meu saber, a minha inteligência em projetos relevantes, eu revivo o meu potencial criativo.Cada suor meu consolida a ideia que me transformo em alguém melhor,à medida em que vou me descobrindo como ser responsável,cidadão capaz de contribuir pela construção de uma sociedade mais justa,igualitária.

  Acho a expressão matar um leão por dia insuficiente, imprecisa para todos nós.Sim,é do conhecimento geral o caráter de certas circunstâncias presentes em nosso cotidiano,onde precisamos executar vários malabarismos.Atravessar a rua é uma ação tranquila para quase todo mundo.Nem sempre isso acontece conosco.Contudo,não é desse esforço que eu tiro as melhores lições.

  Vale para mim o esforço constante de manter o prumo, o fôlego nas provas monumentais colocadas pela existência. Termos o direito constitucional de ir e vir violado, não possuirmos oportunidades de trabalhos condizentes com a nossa vocação e valor intelectual,e ainda lidarmos com a pequenez de certas figuras. Por isso cada vez mais eu consagro o dom para ressurgimos,de forma teimosa e constante para melhorarmos.

 O samba das dificuldades toca sempre.A fala desanimadora,vinda do nosso íntimo,a nos convocar um convívio com o desespero, é feito um pandeiro mal tocado.Na cadência dos nossos sonhos nós reaparecemos na avenida,dia após dia.Mesmo com a voz cansada,as pernas bambas,e o coração palpitante,eu não posso perder o ritmo da música que me eleva .E quem dá o tom dela é sempre o som convocado pela ressurreição.

O domingo de hoje nos lembra uma qualidade que já desenvolvemos faz tempo.

Que a cada renascimento nosso nós voltemos mais plenos, aptos para sedimentarmos o nosso caminho.

Uma feliz Páscoa e um abraço para todos !


André Nóbrega.  


20 março 2016

E a inclusão?Como fica??



   Vivemos um Fla x Flu ideológico,onde o debate foi trocado pelo embate.A capacidade de ouvir o outro não vale nada.A tolerância com a opinião de quem pensa diferente acabou.É preocupante ver essa conduta de guerrilha se proliferar pela internet.

  Como falar da inclusão da pessoa com deficiência nesse cenário?Porque tratar da questão implica considerar sentimentos antiquados nas atuais práticas de afeto.Em especial,em situações assim,como ressaltar a acessibilidade nesses dias tristes do amor nos tempos do cólera? Conclamar por soluções para a questão no país do zika vírus,dividido em duas correntes políticas?

 A acessibilidade prescinde da solidariedade, carece da empatia para fazer valer alguns dos seus pontos essenciais, necessita de muita compreensão dos leigos,daqueles que desconhecem o nosso problema para nos ajudarem a implementarmos soluções.
  
 Já me senti um alienígena em algumas situações da vida.A adolescência é pródiga em produzir momentos assim.A procura por uma identidade,em querer se sentir aceito por um grupo permeia essa época, e nos leva também a nos deparar com um conjunto de reações inconsequentes,despropositadas.Porque as primeiras provas da vida começaram, o vestibular da existência nos convoca a agir.

 As reações de ódio,intolerância a predominar no contexto do país parecem fruto de uma democracia recém saída da infância difícil,perpassada por um passado traumático e  opressor.
  
 Ser um deficiente físico já me obriga a remar contra a corrente. Escrever sobre a inclusão nesse março de 2016 parece soar inadequado.

 Embora triste com a situação política que impera, fico vazio mesmo por me sentir meio como um pastor de uma mensagem esquisita, estranha a momentos como que o vivemos atualmente.Hoje estão consideradas as falas raivosas,exponenciadas pela maneira acusatória ,excludente de lidar com a opinião do outro.

 Mesmo assim, vale e muito brigar por essa causa.

Um abraço para todos,


 André Nóbrega. 


13 março 2016

O mundo da acessibilidade plena,universal.



 No mundo da acessibilidade plena,universal,poderei andar nas ruas sem receio de queda.Haverá sempre um meio possível,um jeito de me locomover sem que o medo se hospede.
   
 Porque no mundo da acessibilidade plena existirá um profundo entendimento da dor do outro.Pouco a pouco,as terminologias cairão.Não será mais necessário determinar se fulano tem deficiência,se sicrana é autista.Pois,neste mundo ,seremos artistas sólidos na lição de amar o próximo como a nós mesmos.

  As oportunidades de trabalho serão mais justas.Para toda casa onde formos haverá um banheiro adaptado,nas festas para onde formos chamados, a existência da área VEP(Very Especial People)é categórica.

 No entanto,o conceito da área VEP obedecerá a um caráter inclusivo.Jamais ,em lugar algum, a entrada de alguém ficará restrita a critérios econômicos.Finalmente,a ditadura do ter ruirá,e a adesão de todos a um modo de viver menos opressivo será o capital do mundo da acessibilidade plena,universal.

 As mulheres mais lindas descobrirão como é fácil dançar forró com os caras em uma cadeira de rodas.E aos homens interessados em chegar na área VEP,para conhecer algumas gatas,fica o recado:está proibido chamá-las de outra coisa que não seja o nome delas.
  
 Que tal trocar essa mania de chamar os outros de cadeirante e optar por falar Maria,João e etc?A cadeira ,o andador ,a muleta são objetos necessários para a nossa locomoção.Não diz quem somos. 

 No mundo da acessibilidade plena,universal,coitado de quem tiver pena da gente.Não precisaremos ser exemplo para ninguém,pois não seremos mais a exceção a nenhuma regra.Enfim,o ideal de igualdade,fraternidade e liberdade estará enraizado em nosso DNA.
  
 As crianças em idade pré-escolar,quando começarem a ler,estarão aprendendo na prática os ensinamentos passados por Mathama Gandhi,Jesus Cristo e Mather Luther King .

 Com as escolas inclusivas,dará gosto ver como as nossas crianças estarão comprometidas com o projeto de mundo melhor.Serão sementes tão sólidas quanto espontâneas.Os frutos da educação inclusiva vão podar a intolerância secular a gerar galhos,ervas daninhas na nossa sociedade.

 Desfazer o normal há de ser uma norma tão bonita quanto o riso dos bebês .O essencial será mais visível aos olhos de todos. No mundo da acessibilidade plena,a prática do amor,da gratidão ,da gentileza estará tão assimilada,tão fixada que sobrará somente uma vaga lembrança daqueles outros tempos.  .E,é claro,as vagas preferenciais não serão desrespeitadas por motoristas inconsequentes.

  Todos os nossos direitos adquiridos estarão assimilados pela prática social.Em casos de eventuais descumprimentos ,a pessoa a realizar qualquer ação contra a gente será tomada por imensa vergonha.Além das sanções penais,esses cidadãos serão peixes fora da água,remarão contra a corrente linda a mover o mundo inclusivo da acessibilidade plena.

 Bem,ao persistirem ocorrências dessa natureza para os descontentes com a regra desse admirável mundo novo,valerá esse artifício:vamos aplicar um chá de cadeira para tais figuras.Assim elas permanecerão.Pelo menos, até delas nascer a consciência das dádivas,dos infinitos benefícios de aderir a emergente construção desse pleito.Ser ou não ser um operário pelo mundo da acessibilidade não será mais uma questão.

  Ainda falta muita coisa para esse mundo ser criado.No entanto,muitas das grandes transformações da sociedade primeiro surgiram na forma de sonho.Depois,com muita luta,certos enunciados formaram forças catalisadoras,capazes de inspirarem as pessoas a se engajarem por uma causa nobre.

  Podemos aqui,agora, plantar as sementes do mundo de acessibilidade que enxergamos como o ideal.

Um abraço para todos.

 André Nóbrega.



07 março 2016

A mais alta ajuda.



    Existe uma literatura de almanaque. São livros rasos a nos prometerem uma felicidade tão fácil quanto insuficiente. Pois os caminhos propostos em tais manuais são receitas de bolo para melhorarmos, termos uma existência mais rica.

  Porque desconfio de quem condiciona a vida a um pensamento comprado de autoajuda, daqueles que apregoam o pensamento positivo como matéria única de um viver pleno.

   E o que seria um viver pleno para nós?Não tenho a menor ideia. Carrego em meu DNA um ímpeto questionador, não aceito muito bem algumas psicologias de boteco. O valor dos livros sobre como melhorar, progredir e conquistar tudo o que almeja adotando 97 hábitos eficazes não me seduz.

  Tenho um ceticismo profundo dos livros que ensinam como influenciar as pessoas, namorar a Gisele Bündchen sem nem precisar mudar o seu penteado, ou a sintonizar uma realidade zen por meio de uma mentalização havaiana.Sinceramente,prefiro as sandálias havaianas.

  Qual é a necessidade de se discutir se o copo com água pela metade está mais cheio, ou menos vazio?Em tempos de zika vírus, água parada é sinal de outra coisa, meus amigos. Dois raios não caem no mesmo lugar duas vezes, mas eu já caí com a cadeira de rodas três consecutivas na mesma rua.

   É certo que a fé remove montanhas, mas não conserta as pedras portuguesas a atrapalharem a o meu caminho. E se Maomé, que era profeta, não vai até a montanha, eu que não vou dar uma de aventureiro, e escalar o Cristo Redentor, por exemplo.

  Brincadeiras à parte, o fato de rejeitar esse tipo de leitura não significa uma renúncia a outros aconselhamentos. A palavra de amigos, o conselho de pessoas por quem nutro admiração, vale e muito.A poesia do Drummond,do Vinícius e do Pablo Neruda funcionam como mantras,para várias situações .

 Porém, nenhuma leitura substitui o valor da experiência bem sucedida. E cada sucesso nosso abriga um mundo de tentativas, erros ,fracassos e frustrações.

  Ser deficiente físico no Brasil é navegar em um mar de impossibilidades. Contudo, a mesma maré que nos obriga a manter uma conduta vigilante também nos abençoa com a realidade de outras praias, capazes de nos transmitirem sensações paradisíacas .

  Rejeito a validade desses manuais rasos. Acho adocicada a maneira deles de abordarem a resolução dos problemas. Primeiro porque é difícil precisar uma natureza comum das tristezas, achar um denominador X presente a todo tipo de situação a nos afligir. E achar que tudo se resolva por fórmulas é uma situação compatível com a matemática, não com a trajetória humana.

  A fórmula da felicidade não está completa. Ela é percorrida, construída por cada um de nós a cada dia. Nem tudo depende da vontade pura e simples. Para além da motivação, a vontade de sermos pessoas melhores,mais produtivas,existe um diferencial:um mínimo de justiça nas oportunidades que nos são oferecidas.

Sejamos os construtores da mais alta ajuda, e vamos validar cada vez mais os nossos esforços na luta pelos direitos da pessoa com deficiência.

Um abraço para todos!


André Nóbrega. 


29 fevereiro 2016

A legião de curiosos indiscretos


-Como você ficou assim?
-É uma história longa,senhora.
-Mas você é tão novo.
-Para você ver...

O que dá o direito de pessoas que mal nos conhecem quererem saber disso?  Por que essa curiosidade mórbida,essa ação reiterada de pessoas estranhas ao nosso convívio de nos interpelarem,e quererem saber disso?

 E quem disse que eu respondo a tais indagações sem noção?A reposta é protocolar.Quando mando o ‘’é uma longa história’’,emito um tom raivoso.Faço uma cara de mal humorado,também.Desta maneira,impeço as benditas criaturas que me perguntam isso não persistirem,para depois,começarem a fazer um interrogatório.

 Mesmo assim,o encontro com gente sem noção é inevitável.

Certa vez,enquanto pegava um táxi,veio a clássica pergunta:

-Você ficou assim como?
-É uma história longa,nem vale à pena contá-la agora.
-Foi acidente de moto?
-Não,cara...
-De carro?
-Não,não foi...
-Na boa,pode falar,foi alguma mulher que deixou você assim?

Eu não sabia se ria,se mandava o cidadão ligar o rádio,no volume máximo.Também me bateu um alívio por não ter namorado nenhuma psicopata.

 Outro dialogo que me recordo,também feito com um taxista,foi este:

-Você precisa falar sobre isso,tem que falar com os outros sobre como ficou.Aí,você,pode inspirar as pessoas.
-Olha ,inspiração para as pessoas foi Jesus Cristo,Gandhi.Se você quer saber de histórias inspiradoras você pode assinar a Revista ‘’Seleções’’.Lá , você encontrará casos extraordinários de superação.

 Mesmo com alguma tensão no ar,o restante da viagem prosseguiu em silêncio.

Não temos a obrigação e sermos exemplo para ninguém.Muito menos, a de contar sobre a nossa deficiência sem que conheçamos bem quem nos pergunta.Existe uma legião de curiosos indiscretos.

  Para quem não nasceu com deficiência,ter que contar sobre as condições ,os detalhes ocorridos no momento em que adquirimos a nossa lesão,nem sempre é um exercício agradável para a nossa memória.

  Conto isso sem problema algum quando sinto haver uma preocupação comigo.Se vou criar laços novos,é indispensável relatar isso.Em tais casos,conto logo no início do contato firmado.

  Porque a minha deficiência não é o fator mais importante da minha vida.Ela não diz quem eu sou , ela apenas sinaliza,aponta algumas restrições com as quais preciso me defrontar.

  Gostaria muito que os outros prestassem mais atenção na minha roupa do que no meu andador.Porém,o senso comum a fixar o deficiente físico como um desvio da normalidade atrapalha.

  Mas,vida que segue.

Um abraço para todos,


André Nóbrega.


22 fevereiro 2016

Empatia é quase amor

  
  Empatia: substantivo feminino. Ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias. Pode ser a aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende.

     A mostra sensorial ‘’Diálogo no Escuro’’ dimensiona o significado da palavra empatia, e muito melhor do que qualquer verbete de dicionário. Antes, contudo, me responda de maneira sincera: você gostaria de saber como a deficiência visual atinge as pessoas?

 Talvez, você, ao pensar no tema,ressalte as informações gerais, comuns ao tema.Mesmo que tais pensamentos estejam fixados a um desfile de lugares comuns.Tais como aquela máxima,a afirmar que todo o cego é dotado por uma superaudição .Isso vale para o Stevie Wonder,com certeza funcionou para o Ray Charles.Tenho cá minhas dúvidas sobre a aplicabilidade disso de forma unânime,vinculada como verdade para todos que passem pelo problema.

  Acho que a necessidade de adaptação seja inerente a alguém com essa deficiência. Aí sim, seja indispensável apurar o sentido da audição .Muitas vezes, isso nos é passado como um poder mágico. Acreditar nisso dá um tom de uniformidade rasteira para a questão. E quando aceitamos essas conceitualizações de meia tigela,nós ficamos distantes das peculiaridades do tema.

   Ao invés de repetir um clichê, por que não deixarmos a experiência modificar o acúmulo das formulações teóricas inconsistentes?Que tal deixarmos a empatia reformular as percepções acumuladas sobre o tema?

  O que a mostra ‘’Diálogo no Escuro’’ propõe é justamente isso. Nela, você será guiado por ambientes sem nenhuma iluminação, e tendo como guia um deficiente visual.

    Imagino a abrangência da iniciativa. Uma ação potente, capaz de nos tirar da zona de conforto, e passar pela experiência, pelo menos por alguns momentos,de como se dá a percepção de uma pessoa com referências singulares,bem diferentes das nossas. Quais os mecanismos usados por alguém que não enxerga usa  para perceber a vida?

   Essa empreitada louvável acontece no Rio de Janeiro, no Museu Histórico Nacional, e em São Paulo, no Centro de Cultura Judaica.

   Nos tempos onde todo e qualquer registro precise da tutela do selfie para provar a sua legitimidade, mostras assim possuem um caráter pedagógico, também.Porque desconstrói a lógica de São Tomás de Aquino, a afirmar que é necessário ver para crer.

  Quando somos mais jovens, ficamos mais suscetíveis a afirmação de que aquilo que é essencial é invisível aos olhos.Com o passar do tempo,a crueza das experiências,deixamos de acreditar no enredo de histórias como a narrada no livro ‘’O Pequeno Príncipe’’.

  Endurecemos sim, em decorrência das circunstâncias com as quais nos deparamos.Por isso mesmo,devemos validar o propósito de ações como essa,capazes de nos fixarem um conceito de empatia sem a leitura de um manual.

    Com ‘’Diálogo no Escuro’’,além do bem-vindo auxílio da pessoa encarregada de lhe acompanhar,a emoção será o seu guia.

   Imagina como a visita deve ser transformadora?

  Um abraço para todos,


  André Nóbrega.


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